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| um jornal? uma revista? | ||||
| edição n.º 11 | editorial | rui ângelo araújo | ||
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editorial
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«Não é o problema de quem está amordaçado, mas
é o problema de quem é mudo.»
O que é triste não é que o presidente da RTP diga que não se pode dar o “Citizen Kane” a uma audiência cujos índices culturais são dos mais baixos da Europa — triste é que semelhante afirmação não provoque o mínimo alvoroço. Triste é que a “audiência” — o povo português — possa ser a confirmação (pouco) viva da estupidez que está subjacente àquelas palavras e não se inquiete com isso.
Mais grave do que a televisão pública ceder aos desejos mais primários duma população acrítica, estruturalmente diminuída, é a bonomia com que isso é aceite. Em nome das audiências, das maiorias perversamente democráticas, duma lógica de almocreve pós-moderno (a do mercado) e de outras razões menos confessáveis, dá-se pão e circo ao povo — e o povo rejubila, ululante.
É assim a sociedade portuguesa. Nada se exija do povo! Não se lhe dê desafios (excepto os do futebol), que isso pode-lhe fazer mal à cabecinha! (Pode-lhe abrir horizontes e mostrar a farsa em que vive...)
É deprimente ver como o povo português cede ao vácuo intelectual que o atrofia; é desolador observar como os portugueses se realizam no mais efémero dos saberes, e como, em nome desta colectiva inanimidade se constrói uma sociedade de comprazimento do boçal.
O que alimenta a confrangedora mediania reinante? A necessidade igualitária dos medíocres? O triunfo do ditado «em terra de cegos quem tem um olho é rei»?
Por menos mirabolantes que possam ser as teorias sobre a necessidade que os dirigentes têm de uma sociedade mantida nas trevas, nenhuma explica a inépcia do cidadão no meio deste lodo. Esta forma “habitual” de viver em alheamento não é mantida à custa de censuras, de posturas orgulhosamente sós... Este não é o Estado Novo, embora o novo estado das coisas pouco difira daquela época obscura. A diferença talvez resida na forma activa como os cidadãos participam na construção do logro.
Em Trás-os-Montes a regra não encontra excepção. Provavelmente reforça-se. A frase que dá título a este editorial (retirada da excelente entrevista de Paulo Vaz de Carvalho) pode conter em si a resposta às inquietações aqui enunciadas. Habituados a bradar “aqui d’el-rei que estamos amordaçados”, ainda não descobrimos que as tradicionais mordaças caíram há muito tempo. O que temos agora não são mordaças, mas limitações a que só o nosso incomensurável conformismo, a nossa inconfessável apatia e a nossa vergonhosa cedência à estupidez permitem existência prolífera. Actualmente, nada nos obriga à mediocridade — no entanto promovê-mo-la.
Escorreitos de nascença, a voz tolda-se-nos sem explicações científicas. Aguarda-se o definitivo milagre de Fátima que, mais do que restituir-nos a fala, nos demonstre as razões da nossa mudez.
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transmontano sem preconceitos |
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