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edição n.º 11 1, 2, 3, caricatura paulo araújo  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo


Paulo Araújo segundo Paulo Araújo
Paulo Araújo segundo
Paulo Araújo

O Sonho de Salazar


No final do ano passado (como se se tratasse do fim do século, ou do milénio, senão do mundo) as páginas dos media atulharam-se de toda a espécie de balanços do século XX. As descobertas científicas, as guerras, os fenómenos naturais, as grandes figuras. O costume. Inventários, com mais ou menos rigor, mas sobretudo mediáticos. Para consumo imediato. Em muitos jornais fizeram-se balanços segundo o critério dos próprios leitores. O que torna a coisa mais interessante, porque traz resultados quase sempre surpreendentes.

Ora acontece que, num desses órgãos de comunicação, o fiel leitor elegeu como figura portuguesa do século XX nada mais nada menos do que esse grandessíssimo figurão que foi António de Oliveira Salazar. Exactamente. O tipo que caiu da cadeira. De facto o homem marcou uma substancial parte deste século. Foram muitos anos — demasiados anos — de ditadura, de perseguição, de PIDE, de censura, de opressão. Numa palavra: Fascismo. Tudo a bem da nação.

Mas devo dizer, desde já, que concordo inteiramente com esta votação. A sério. Este senhor constitui inevitavelmente uma peça importantíssima no puzzle da nação. E se, por um lado, foi o principal responsável pelo nosso período mais negro deste século, por outro, não deixou de marcar um estilo, que ainda hoje é uma referência. Estou convencido que a peça continua viva (e bem viva) em muitos de nós. Digo mais: em cada português há um Salazar. Desde o chefe de família até ao chefe de Estado, passando pelo chefe de cozinha (não há cozinha que não tenha um salazar1). Exemplos não faltam.

Vamos por partes. O presidenciável, ma non tropo, professor Cavaco tem a dureza e a determinação dos tempos áureos do ditador: «Nunca me engano e raramente tenho dúvidas», ou ainda, «Deixem-me trabalhar», são verdadeiros ex-libris desses saudosos tempos. António Guterres, exímio orador, tem o Salazar no coração — ou pelo menos no discurso: «Deus, pátria, trabalho, família». A RTP, mais do que um canal do Estado, continua a ser um ministério. O ministério da propaganda. Jorge Coelho faz a ponte. Depois temos o turbulento João Jardim, cujas influências nos levam ainda mais longe do que antigo regime. Roma antiga. Embora só use a toga em ocasiões especiais — como o carnaval -, o líder madeirense tem o perfil de um verdadeiro César. Só lhe falta mesmo pôr o contenente a arder. Vale-lhe Baco.

Mas onde mais se nota a implacável herança de Salazar é no povo. Esse amontoado de cidadãos. Homens da lavoura. Operários. Etceteras.

O ditador achava que não seria de bom tom (por assim dizer) que a turba manifestasse muito interesse pelas questões de Estado. Enfim, política, economia, ultramar. De maneiras que o mais acertado era privá-la de tudo o que pudesse ser considerado maléfico para si e, consequentemente, para a lusa pátria. Direitos como a informação, a educação, a liberdade de opinião e outras merdas revolucionárias terminadas em ão eram tabu. Portugal, país de brandos costumes era assim a imagem ideal para regime. Chamando os bois pelos nomes: ignorância. Um povo ignorante e distraído era o grande projecto que o Estado de então sonhava para país.

Entretanto, conquistámos a liberdade há 25 anos. Muita coisa mudou. Vivemos a tão desejada democracia. Entrámos na Europa. Temos auto-estradas, TV cabo, fastfood, telemóveis... Enfim, quase tudo. Só que, vá lá saber-se porquê, continuamos a escarrar no passeio. A deitar o papelzinho ao chão. O nosso comportamento nas estradas é um... desastre. A relação que temos com os livros é a mesma de sempre: nenhuma. O nosso acompanhamento da política faz-se (quando se faz) nos intervalos dos jogos de futebol, se não estivermos ocupados a insultar o árbitro ou a discutir pela milionésima vez o sexo... do Jardel. Da educação nem a ausência lhe notamos.

A eleição post mortem de Salazar (delicioso parodoxo, para um crítico da democracia e das eleições livres) para figura do século não me causa grande estranheza. Porque a verdade é que continuamos muito... distraídos. O facto é que o sonho de Salazar ainda dura. E dura...


1 Espátula; instrumento de cozinha.

 
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pabloarau@periferica.org

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