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edição n.º 11 anacrónicas [3] maria dos remédios  

editorial

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transmont. online

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apartado 51

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, Anabela Ribeiro, Carlos “Cazé” Dias, Duarte Carvalho, Elza Garcia, Fernando Gouveia, Gil Silva (Giló), Jorge Rodrigues, José Ferreira Borges, Luís C. Teixeira, Luís D'Almada, Luísa Costa, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Trogloditikós, Vítor Lamas.

ilustração de Elza Garcia
ilustração de Elza Garcia

Luísa Costa, Maria dos Remédios e Manuel Guimarães peroram, atrasados, sobre o milénio. Anacrónicos, portanto. É o fim do mundo.

Milénio [3]


Alimentar a enfadonha polémica sobre a mudança de milénio não faz parte das minhas intenções. Para mim, o acto de diariamente desenhar, no quadro preto, bem redondinhos, os três zeros comandados por um dois imponente, encanta-me. A verdadeira magia está justamente aí, nem que seja para reforçar a saborosa vingança contra o imperialismo romano, causador da mais global e comum discussão da humanidade. Dar-me-ia um prazer enorme assistir à forma como eles resolveriam o quebra-cabeças que a falta do zero provocaria. Enfim, o que nos salvou foi terem aparecido os mouros!...

Com esta confusão que faz de nós uns dependentes de teorias despropositadas, vejo-me agora incapaz de me situar — já estou no novo milénio ou deambulo ainda no velho? Para não deitar mais achas para a fogueira, cerro os olhos e, envolta na minha confortável manta, descanso o corpo gelado.

Desfilam na minha mente batalhões de seres perfeitos, todos iguais, milimetricamente iguais, horrivelmente iguais, altos, loiros, sãos, como fora determinado no acto da sua concepção. Tudo é perfeito, como de um perfeito quadrilátero se tratasse. Tudo é monótono...

Os minutos, os anos, os séculos avançam, cadenciados, sem quebra de ritmo, sem desvios, sem hesitações...

O sol já não faz brilhar o feldspato das calçadas porque a densa nuvem o retrai. Apressa-se o amadurecimento dos frutos porque a terra é já uma imensa estufa onde tudo é tecnologicamente concebido, vedando o acesso ao acaso, à intempérie, ao sentimento...

Em que milénio estou?

 
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