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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

TIMORtoons: cartoons editoriais sobre Timor Leste


Fernando Gouveia segundo Paulo Araújo
Fernando Gouveia segundo
Paulo Araújo

Ciber-Guerr@


Setembro foi um mês intenso em Portugal. O país uniu-se em torno de uma causa como — porventura — nunca antes o fizera: Timor Leste.

As motivações foram, certamente, diversas: solidariedade para com “irmãos na fé”; a voz de uma identidade cultural comum (se bem que por vezes exagerada); um desejo de causas nobres por que lutar; algum remorso por passos mal dados no nosso passado histórico recente; um (mal-)disfarçado saudosismo pelo Império que, a 20 de Dezembro próximo, terá o seu último estertor; um activismo militante pelos Direitos Humanos; e uma certa histeria colectiva. (Não me esqueço da raiva insana com que um homem, rouco, gritava para que se declarasse guerra à Indonésia — nessa altura percebi como foi fácil a certos ditadores serem adorados como deuses, enquanto conduziam a turba cega em direcção ao abismo...)

Nas guerras modernas, para além de se contarem as armas e os homens, olha-se também para as sondagens — uma opinião pública contrária pode ser o fim; a (contra-)informação está na ordem do dia. E se, até há pouco tempo, a opinião pública era informada (e enformada) “apenas” através da televisão (principalmente), da rádio e da imprensa escrita — tudo meios de comunicação de massas controlados por não mais do que um punhado de indivíduos ou grupos político-económicos —, actualmente, com a expansão (e, até certo ponto, democratização) da Internet, chegar a um significativo número de pessoas, em qualquer parte do Mundo, tornou-se viável para quase qualquer um.

Depois dos internautas sérvios (contra os bombardeamentos da NATO), em Setembro foi a vez da ciber-comunidade lusitana entrar em acção, em defesa do povo de Timor Leste. As acções foram as mais diversas, algumas das quais (petições online e envio de e-mails para Bill Clinton, Kofi Annan e outros líderes mundiais, por exemplo) foram amplamente divulgadas, e de importância reconhecida pelo próprio Secretário Geral da ONU. Mas não foram estas as únicas iniciativas levadas a cabo pelos internautas portugueses.

Em termos de solidariedade monetária, o Netc (portal internet da Telecel) foi porventura o mais original, oferecendo 1 escudo para a reconstrução de Timor Leste por cada clique num botão colocado para o efeito no seu site, podendo os internautas clicar nele tantas vezes quantas quisessem. Resultado: com tanto clique (a última vez que vi, o seu número aproximava-se dos 800 mil), aquele site ficou rapidamente engarrafado. (Um colega meu, mais engenhoso, contornou a situação, arranjando um sistema automático que, de dois em dois segundos, “clicava” no tal botão, sem que ele precisasse de perder tempo com isso...)

Depois, multiplicaram-se os sites de divulgação da causa timorense, uns iniciativa de organizações mais ou menos enraizadas, muitos fruto da revolta de anónimos. Outros, em alternativa, solidarizaram-se colocando os seus sites de luto (a negro, com links para sites pró-Timor), ou mesmo encerrando-os totalmente, como forma de protesto.

O Guia do Activismo Online, para além de divulgar todas (?) as iniciativas online por Timor, alargou o conceito da petição ou do envio de e-mails a um punhado de políticos influentes, criando mailing lists com centenas de destinatários, entre políticos e jornalistas (principalmente americanos). Alguns advogaram mesmo o “entupimento” das caixas de correio electrónico da CNN, chamando desta forma a atenção para os acontecimentos naquela meia ilha do sudeste asiático. (Não sei se a ideia pegou — ou se isso era sequer desejável —, mas pelo menos o e-mail do Presidente americano transbordou rapidamente.)

Mais radicais, os hackers1 portugueses lançaram-se na “caça aos sites” indonésios, substituindo o seu conteúdo habitual por mensagens de denúncia contra a Indonésia. Nada de inédito: quando Ali Alatas se candidatou a Secretário Geral da ONU — tendo perdido para Kofi Annan —, um grupo de hackers lusos violou o site oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros indonésio, transformando-o por umas horas num bastião da luta pela autodeterminação do povo timorense2; meses depois foi a vez dos hackers indonésios ripostarem, atacando os sites do domínio .tp (o domínio de Timor Leste — que, pelo menos no ciber-mundo, é já independente).

Estas “acções de guerrilha” assumiriam também outras formas mais terra-a-terra: mensagens e imagens deixadas nos guestbooks3 de sites oficiais indonésios (como o do Ministério do Turismo, onde um compatriota nosso colocou imagens dos massacres pós-referendo), envio por e-mail de mensagens e palavras-de-ordem para telemóveis indonésios (que alguém arranjou forma de descobrir), participação activa em newsgroups4 e fóruns de discussão internacionais, etc.

Visando uma maior cobertura jornalística a nível mundial, os cartoonistas portugueses, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas (SJ), autorizaram a republicação, gratuita, dos seus cartoons sobre o tema. A eles se juntariam, mais tarde, um punhado de cartoonistas estrangeiros, alguns deles graças ao contactos previamente estabelecidos por quem estas linhas escreve.

É esta a minha principal participação nesta ciber-guerra: inspirado pelo exemplo do SJ, criei um site, TIMORtoons, dedicado à divulgação de cartoons editoriais sobre Timor Leste. Para além de incluir os cartoons disponibilizados pelo Sindicato dos Jornalistas, contactei “pessoalmente” diversos cartoonistas estrangeiros (cujos sites e/ou e-mails consegui descobrir), pedindo-lhes autorização para incluir no meu site os seus trabalhos relacionados com Timor Leste; tenho de reconhecer aqui a pronta (e, por vezes, mesmo entusiástica) adesão por parte dos artistas contactados. Na altura em que escrevo este artigo, TIMORtoons inclui 137 cartoons de 53 artistas (entre amadores e profissionais — alguns de renome mundial) de 9 países: Portugal (31), Espanha (2), Irlanda (1), Suíça (1), Israel (1), Estados Unidos (9), Canadá (3), Austrália (4) e Singapura (1).

É suficiente? Certamente que não — mas se cada um fizer o que pode, sempre se faz alguma coisa.

 
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fgouveia@periferica.org


Notas:

1 Termo que designa os especialistas em computadores, peritos em descobrir as falhas de segurança dos sistemas informáticos. Alguns, verdadeiros ciber-guerrilheiros, invadem-nos e adulteram-nos, em proveito próprio ou como forma de chamar a atenção para determinadas causas.
2 Mais detalhes neste site.
3 “Livros-de-visitas”: páginas que alguns sites possuem, e onde podemos deixar comentários aos mesmos.
4 “Grupos de notícias”: um recurso algo semelhante aos fóruns de discussão, no qual são abordados assuntos de interesse comum.

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

Leia este texto (e muitos outros) também na Secret’Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia.

 

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