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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 10 | um tr@nsmont@no online | fernando gouveia | |
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transmont. online
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Ciber-Guerr@
Setembro foi um mês intenso em Portugal. O país uniu-se em
torno de uma causa como — porventura — nunca antes o fizera: Timor Leste.
As motivações foram, certamente, diversas: solidariedade
para com “irmãos na fé”; a voz de uma identidade cultural comum (se bem que
por vezes exagerada); um desejo de causas nobres por que lutar; algum remorso por passos
mal dados no nosso passado histórico recente; um (mal-)disfarçado saudosismo
pelo Império que, a 20 de Dezembro próximo, terá o seu último
estertor; um activismo militante pelos Direitos Humanos; e uma certa histeria colectiva.
(Não me esqueço da raiva insana com que um homem, rouco, gritava para que se
declarasse guerra à Indonésia — nessa altura percebi como foi fácil a
certos ditadores serem adorados como deuses, enquanto conduziam a turba cega em
direcção ao abismo...)
Nas guerras modernas, para além de se contarem as armas e os homens,
olha-se também para as sondagens — uma opinião pública
contrária pode ser o fim; a (contra-)informação está na ordem
do dia. E se, até há pouco tempo, a opinião pública era
informada (e enformada) “apenas” através da televisão (principalmente), da
rádio e da imprensa escrita — tudo meios de comunicação de massas
controlados por não mais do que um punhado de indivíduos ou grupos
político-económicos —, actualmente, com a expansão (e, até
certo ponto, democratização) da Internet, chegar a um
significativo número de pessoas, em qualquer parte do Mundo, tornou-se viável
para quase qualquer um.
Depois dos internautas sérvios (contra os bombardeamentos da NATO),
em Setembro foi a vez da ciber-comunidade lusitana entrar em acção, em defesa
do povo de Timor Leste. As acções foram as mais diversas, algumas das quais
(petições online e envio de e-mails para Bill
Clinton, Kofi Annan e outros líderes mundiais, por exemplo) foram amplamente
divulgadas, e de importância reconhecida pelo próprio Secretário Geral
da ONU. Mas não foram estas as únicas iniciativas levadas a cabo pelos
internautas portugueses.
Em termos de solidariedade monetária, o
Netc (portal
internet da Telecel) foi porventura o mais original, oferecendo 1 escudo para a
reconstrução de Timor Leste por cada clique num botão colocado para o
efeito no seu site, podendo os internautas clicar nele tantas vezes quantas quisessem.
Resultado: com tanto clique (a última vez que vi, o seu número aproximava-se
dos 800 mil), aquele site ficou rapidamente engarrafado. (Um colega meu, mais
engenhoso, contornou a situação, arranjando um sistema automático que,
de dois em dois segundos, “clicava” no tal botão, sem que ele precisasse
de perder tempo com isso...)
Depois, multiplicaram-se os sites de divulgação da
causa timorense, uns iniciativa de organizações mais ou menos enraizadas,
muitos fruto da revolta de anónimos. Outros, em alternativa, solidarizaram-se
colocando os seus sites de luto (a negro, com links para sites
pró-Timor), ou mesmo encerrando-os totalmente, como forma de protesto.
O Guia do Activismo Online,
para além de divulgar todas (?) as iniciativas online por Timor, alargou o
conceito da petição ou do envio de e-mails a um punhado de
políticos influentes, criando mailing lists com centenas de destinatários,
entre políticos e jornalistas (principalmente americanos). Alguns advogaram mesmo o
“entupimento” das caixas de correio electrónico da CNN, chamando desta forma a
atenção para os acontecimentos naquela meia ilha do sudeste asiático.
(Não sei se a ideia pegou — ou se isso era sequer desejável —, mas pelo menos
o e-mail do Presidente americano transbordou rapidamente.)
Mais radicais, os hackers1
portugueses lançaram-se na “caça aos sites” indonésios,
substituindo o seu conteúdo habitual por mensagens de denúncia contra a
Indonésia. Nada de inédito: quando Ali Alatas se candidatou a Secretário
Geral da ONU — tendo perdido para Kofi Annan —, um grupo de hackers lusos violou o
site oficial do Ministério
dos Negócios Estrangeiros indonésio,
transformando-o por umas horas num bastião da luta pela autodeterminação
do povo timorense2; meses depois foi a vez dos hackers indonésios
ripostarem, atacando os sites do domínio .tp (o domínio de Timor
Leste — que, pelo menos no ciber-mundo, é já independente).
Estas “acções de guerrilha” assumiriam também
outras formas mais terra-a-terra: mensagens e imagens deixadas nos
guestbooks3 de sites oficiais indonésios
(como o do Ministério do Turismo, onde um compatriota nosso colocou imagens dos
massacres pós-referendo), envio por e-mail de mensagens e
palavras-de-ordem para telemóveis indonésios (que alguém
arranjou forma de descobrir), participação activa em
newsgroups4 e fóruns de discussão
internacionais, etc.
Visando uma maior cobertura jornalística a nível mundial,
os cartoonistas portugueses, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas (SJ), autorizaram a republicação, gratuita, dos
seus cartoons sobre o tema. A eles se juntariam, mais tarde, um punhado de cartoonistas
estrangeiros, alguns deles graças ao contactos previamente estabelecidos por
quem estas linhas escreve.
É esta a minha principal participação nesta
ciber-guerra: inspirado pelo exemplo do SJ, criei um site,
TIMORtoons, dedicado à
divulgação de cartoons editoriais sobre Timor Leste. Para além de
incluir os cartoons disponibilizados pelo Sindicato dos Jornalistas, contactei “pessoalmente” diversos cartoonistas
estrangeiros (cujos sites e/ou e-mails consegui descobrir), pedindo-lhes
autorização para incluir no meu site os seus trabalhos relacionados
com Timor Leste; tenho de reconhecer aqui a pronta (e, por vezes, mesmo entusiástica)
adesão por parte dos artistas contactados. Na altura em que escrevo este artigo,
TIMORtoons inclui 137 cartoons de 53 artistas (entre amadores e profissionais
— alguns de renome mundial) de 9 países: Portugal (31), Espanha (2),
Irlanda (1), Suíça (1), Israel (1), Estados Unidos (9), Canadá (3),
Austrália (4) e Singapura (1).
É suficiente? Certamente que não — mas se cada um fizer o
que pode, sempre se faz alguma coisa.
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| 1 Termo que designa os
especialistas em computadores, peritos em descobrir as falhas de segurança dos
sistemas informáticos. Alguns, verdadeiros ciber-guerrilheiros, invadem-nos e
adulteram-nos, em proveito próprio ou como forma de chamar a atenção
para determinadas causas.
Leia este texto (e muitos outros) também na
Secret’Área, o refúgio
literário de Fernando Gouveia. |
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transmontano sem preconceitos |
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