|
conteúdos
editorial
provocações
opinião 1
opinião 2
opinião 3
opinião 4
imoralidades 1
imoralidades 2
perfil
entrevista
gato das botas
transmont. online
torre dos coléricos
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
anacrónicas 4
património
ensaio 1
ensaio 2
poesia 1
poesia 2
poesia 3
caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
|

ilustração de Paulo Araújo
|
CÂNTICO GREGORIANO
hoje, canto salmodias
com anjos mirrados — no inferno
crucificados por um olhar
De uma beleza insuportável — melífico
aqui o tempo já não é
contamos as horas — de ontem
que silvam no vento
de uma ternura espessa — no abismo
bebemos os sexos ávidos
de um vinho negro — profundo
e inalamos os olores
dos pequenos nadas — de hoje
passeamos num anfiteatro grego
e purificamo-nos na água acesa
das sensações geometricamente invertidas
onde brotam flores medonhas, disformes
que nos trazem o sabor das coisas antigas
como se fossem mitos que queremos ter por dentro...
mitos que nenhum exorcismo esventrará
mitos como alcateias, que uivam de noite
mitos que não dizemos a ninguém
por serem demasiado nossos
mitos que se cristalizaram no tempo
e que rebobinamos milhentas vezes
olhando sempre as mesmas imagens quietas
cenas projectadas a preto e branco
pela antiquíssima máquina absurda da esperança
mitos... mitos... mitos...
e mais nada
..........................................................
às vezes, quando chove, fico contemplativo
a olhar as intempéries malditas dos sonhos inacabados
gotículas de sílabas nunca projectadas
que se precipitam agora em todo meu cosmos interior
batendo com estrépito na vidraça da realidade...
o meu inverno é este...
trás consigo o som vítreo
que me rasga a carne por dentro
como se fosse uma loucura infantil
ou uma peste com sabor a mel
é um manicómio imenso
onde me sento todos os dias
numa vastidão quase perplexa e onírica...
outras vezes, no meu inverno
o nevoeiro desce das altas montanhas
trazendo consigo a opacidade das coisas antigas
e então, ali fico eu, como um cinéfilo obstinado
tentando reconstruir a película da cena idílica
tentando encontrar a cor perfeita...
o olor daqueles dias...
que agora é só húmido nevoeiro... .e fico confuso...
já não encontro os sons...
inalo o tacto...
de vez em quando... acaricio a cor...
sinto na derme a distância...
guio-me pela lux eterna
de um silêncio compacto
formado pela trémula luz
de sete velas dispersas
que num altar antro
evocam a demência...
...e sinto tudo... |
|
| |

ilustração de Paulo Araújo
|
sinto o gélido pular no âmago das íris
gritam-me cosmos interiores em cores fugidias
amordaço animais antigos com fracturas expostas
esculpo em mármore sorrisos que nunca tive
vagueio em serras primitivas de desejos lascivos...
fujo em comboios para todos os sítios
lapido sentimentos em pleno vértice
deliro o sonho da romã perfeita
acordo de noite com vozes de poetas
rezo orações que se perdem no espaço
sobe-me a raiva do eco aos dentes...
roncam-me tangentes de lucidez
sinto serpentes nos lábios
oiço o tacto da urze
rapto virgens inocentes
amamento pedras com olhos
encontro civilizações antigas
acendo lareiras de verde
ceifo searas de pássaros...
choro palavras inaudíveis
burilo o canto dos pássaros
ardem-me as cores dos sentidos
flutuo em lábios de ninguém
invoco a rosa do tédio...
estilhaço-me todo
em ínfimas partículas delirantes
que se dispersam por todo o infinito...
depois de tudo isto, fico cansado...
ha ha ha ha (como se já não o estivesse)
agora, fico calmo
como se fosse um arco-íris de pedra
uma estátua grega
toda ela feita de água pura
guardando um rebanho de mitos que
cantam salmos gentios
numa catedral de silêncio
que paralisa os ponteiros dos relógios
e começo a sentir..
as flores de carne que silvam no vento...
vou com elas
em toda a quietude da cor azul
que fica num espaço
entre o mar e o mar, onde eu habito...
aqui fico eu...
aguardando que amanheçam
outra vez tílias
sentindo-me num espelho da água terna...
sentindo... sentindo... sentindo...
tudo isto
por dentro...
por dentro...
nos meus cosmos interiores.
|
|