volta ao index das edições de 1999
um jornal? uma revista?
edição n.º 10 poesia [1] troglodýtes troglodýtikós  

conteúdos

editorial

provocações

opinião 1

opinião 2

opinião 3

opinião 4

imoralidades 1

imoralidades 2

perfil

entrevista

gato das botas

transmont. online

torre dos coléricos

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

anacrónicas 4

património

ensaio 1

ensaio 2

poesia 1

poesia 2

poesia 3

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo

EXCURSÕES DE ALMA


I

A catedral enche os olhos de pedra.
As palavras são barcos de uma dança imóvel:
atravessam os pórticos desiguais
— e ancoram em retábulos de crepúsculo,
na talha do silêncio.

II

Onde ficou a luz de um rápido passar de anjos?
No plural das faces há uma geografia de ruínas.
Aclimatei o meu canto, como a morte a tantas
rosas, à substância de fontes sem espessura.

Passeia os dedos no espelho enrugado a inacabar.
Sabe que nada te ficou do vento nos ciprestes.
Se ascendem as raízes, resta o céu emoldurado
de silfos maliciosos, ou palavras, ou assobios.

O excesso de tentáculos roubou-me a sede.
Nenhum dislate se nomeia puro elixir.
Ensina-me a alquimia do banal, espectro
equânime do meu sonho inverso.

III

Esbofeteei folhas de um plátano a amarelecer.

IV

A sazão da escrita é lívida e obsoleta.
O talento breve irradia nós de treva.
Não tardam as aves últimas, não tarda
o jogo dos volteios, o canto irreversível.

V

A sombra gesticula o impuro drama
que impetuosamente em nós se acolhe.
De haver luz descreve o ângulo já recto
uma angústia menor.

Tentacular se expande, insinuador
de um ático final idolatrado,
esse clarão nos muros quais esponjas
do espírito dilectas.

Vive da cinza a carne o ecúleo póstumo.
Modula medular a morte o gesto
abúlico, de glória ainda febril
a estiolar mortiça.

O insulto de ser fim, ou sol que diz
a anquilose outonal, polui a rocha
em que o verbo ressoa e distorcido
por inteiro se nega.

Sabe de cor o que é da vida errado
um vulto friorento de renúncia,
a igualar sangue humano ao das estátuas,
congelado de medo.

Desnuda, pois, em versos a alma cria
a veste e encobre o ser ao desnudar-se,
intuído onde as palavras tangem breves
a superfície incólume.

A última solidão é a evidência
de um tempo de evadir-se imarcescível,
seguro como grades, frágil como
estilhaços de vidro.

Nenhum pulsar daqui projecta o lúgubre
saimento de idos deuses abjurados,
que uma pintura íntima recorda
e os espelhos duplicam.

VI

A chama transumante do meu ofício primitivo
alumia as rochas musgosas, memorial de negra lama,
coagulada no passado de um terraço ainda sujo.
Ao dizer perdi o eu a medida tomada em claro.
Os três degraus que subo ou desço nem
signo são da arbitrária travessia.
Há plantas nos intervalos das lajes,
há cinzas nos eirados dos sonhos,
e as comissuras filiformes desafiam a busca
de flores na hemorragia dos seus nomes.

VII

O poema — a translúcida ameaça —
recheiem-no de versos lapidares, eruditos ou obscenos.
A morte é uma auréola de pontos finais,
com que sempre os deuses selam a primeira dádiva.

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos