I
A catedral enche os olhos de pedra.
As palavras são barcos de uma dança imóvel:
atravessam os pórticos desiguais
— e ancoram em retábulos de crepúsculo,
na talha do silêncio.
II
Onde ficou a luz de um rápido passar de anjos?
No plural das faces há uma geografia de ruínas.
Aclimatei o meu canto, como a morte a tantas
rosas, à substância de fontes sem espessura.
Passeia os dedos no espelho enrugado a inacabar.
Sabe que nada te ficou do vento nos ciprestes.
Se ascendem as raízes, resta o céu emoldurado
de silfos maliciosos, ou palavras, ou assobios.
O excesso de tentáculos roubou-me a sede.
Nenhum dislate se nomeia puro elixir.
Ensina-me a alquimia do banal, espectro
equânime do meu sonho inverso.
III
Esbofeteei folhas de um plátano a amarelecer.
IV
A sazão da escrita é lívida e obsoleta.
O talento breve irradia nós de treva.
Não tardam as aves últimas, não tarda
o jogo dos volteios, o canto irreversível.
V
A sombra gesticula o impuro drama
que impetuosamente em nós se acolhe.
De haver luz descreve o ângulo já recto
uma angústia menor.
Tentacular se expande, insinuador
de um ático final idolatrado,
esse clarão nos muros quais esponjas
do espírito dilectas.
Vive da cinza a carne o ecúleo póstumo.
Modula medular a morte o gesto
abúlico, de glória ainda febril
a estiolar mortiça.
O insulto de ser fim, ou sol que diz
a anquilose outonal, polui a rocha
em que o verbo ressoa e distorcido
por inteiro se nega.
Sabe de cor o que é da vida errado
um vulto friorento de renúncia,
a igualar sangue humano ao das estátuas,
congelado de medo.
Desnuda, pois, em versos a alma cria
a veste e encobre o ser ao desnudar-se,
intuído onde as palavras tangem breves
a superfície incólume.
A última solidão é a evidência
de um tempo de evadir-se imarcescível,
seguro como grades, frágil como
estilhaços de vidro.
Nenhum pulsar daqui projecta o lúgubre
saimento de idos deuses abjurados,
que uma pintura íntima recorda
e os espelhos duplicam.
VI
A chama transumante do meu ofício primitivo
alumia as rochas musgosas, memorial de negra lama,
coagulada no passado de um terraço ainda sujo.
Ao dizer perdi o eu a medida tomada em claro.
Os três degraus que subo ou desço nem
signo são da arbitrária travessia.
Há plantas nos intervalos das lajes,
há cinzas nos eirados dos sonhos,
e as comissuras filiformes desafiam a busca
de flores na hemorragia dos seus nomes.
VII
O poema — a translúcida ameaça —
recheiem-no de versos lapidares, eruditos ou obscenos.
A morte é uma auréola de pontos finais,
com que sempre os deuses selam a primeira dádiva.