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edição n.º 10 perfil TEXTO: rui a. araújo (c/ f. gouveia e c. chaves)
FOTOGRAFIAS: duarte carvalho*
 

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

Duarte Carvalho, fotógrafo, é um documentarista, um criador, mas também um mecenas cultural. A longa (13 anos) dedicação ao Centro Cultural Regional de Vila Real (CCRVR), é apenas um dos aspectos do seu mecenato, o outro é a montra da sua loja em Vila Real. Como testemunho do seu percurso de fotógrafo tem uma prateleira recheada de prémios. Leia.

Duarte Carvalho (fotografia de Fernando Gouveia)
Duarte Carvalho
(fotografia de Fernando Gouveia)









fotografia de Duarte Carvalho in 'Bisalhães: Arqueologia de um Povo'
fotografia de Duarte Carvalho in Bisalhães: Arqueologia de um Povo









fotografia de Duarte Carvalho in 'Bisalhães: Arqueologia de um Povo'
fotografia de Duarte Carvalho in Bisalhães: Arqueologia de um Povo

Duarte Carvalho
um fotógrafo em Vila Real


Duarte considera-se uma pessoa reservada, acha que faz melhor figura estando num canto a apreciar. «Gosto de estar de lado a ouvir, a aprender.» É modesto em relação aos ensaios fotográficos ou fotografia artística. «O artístico é entre aspas, porque eu não me considero artista.» Depois de ver algumas das suas fotografias apetece contrariá-lo e ignorar as aspas. O intenso trabalho de recolha do património cultural da região que leva a cabo também não é muito de quem gosta de estar de lado apenas a apreciar. É mais de quem não fica à espera que os outros façam.

A sua actividade de fotógrafo divide-se em dois campos, como ele próprio diz. «Eu encaro a fotografia de duas maneiras ou em duas vertentes: uma cultural e outra artística.» Na vertente cultural, sob a forma de recolha etnográfica, o seu portfolio integra os seguintes trabalhos: “Alminhas”, “Tábuas votivas”, “Mezinha de S. Sebastião”, “O azulejo em Vila Real”, “A festa do Bom Jesus do Calvário”, “A religiosidade popular” e “Flagrantes de um povo”. São trabalhos documentais, o mais das vezes acompanhados de textos da autoria de A. M. Pires Cabral, António Cabral, Jorge Ginja e Maria Emília Campos. Com esta última editou recentemente o livro “Bisalhães — Anatomia de um povo”. Da sua lista de trabalhos mais haveria a publicar, mas, geralmente, depois da recolha não têm seguimento porque não há dinheiro. Os patrocínios que arranja não dão para as despesas. Apesar do grande valor que facilmente se vê naqueles documentos, não tem havido interesse na sua publicação. As entidades potencialmente responsáveis «dão os parabéns e acham muito importante». A resposta recorrente de que «agora não há verba, mas qualquer dia...» tem como resultado que «uma pessoa chateia-se e encaixota isto tudo». Está a recolha feita, haja quem lhe pegue.


O percurso

Depois de umas fotografias em pequeno com uma velha Lumière que já seu pai usara por também ter, no seu tempo, o gosto pela fotografia, Duarte sentiu pela primeira vez "necessidade" de fotografar quando cumpria o serviço militar integrado numa companhia na Guiné. Utilizou a fotografia como referência de pessoas e locais. «Para fins militares, entre aspas. Para nós dava muito jeito.» Teve umas noções de fotografia e revelação dadas lá por um cabo. Mais tarde, quando já estavam integrados na região, deixaram de precisar das fotografias para esse fim. Então começou a fotografar aspectos da paisagem, as tradições... Ainda guarda esse espólio. (Como de resto guarda religiosamente tudo o que faz. Mesmo até os trabalhos mais fracos. «Dá para mais tarde ir rever. Aprende-se sempre qualquer coisa. São fases da vida.» Dificilmente rasga uma fotografia).

No ex-ultramar fazia inicialmente fotografia a preto e branco e depois slides coloridos. Mandava os slides da Guiné para Inglaterra e daí vinham para o pai, em Vila Real. Nesse percurso só se perderam dois rolos. «Ou foi coincidência, ou a PIDE conseguiu detectá-los. Um era uma “reportagem” lindíssima sobre o Ramadão». Uma coisa espectacular, diz. O outro foi um levantamento do material bélico que havia à volta do quartel. (Percebe-se o interesse da PIDE).

Depois de cumprido o serviço militar, viveu em Inglaterra. Ali, por uma graçola do destino, contactou com Sebastião Salgado antes dele ser o fotógrafo de renome que é hoje. Conheceu-o através de um engenheiro brasileiro que estava lá tirar um curso. «Nem eu liguei nada ao homem nem ele a mim. Trocamos assim umas coisas... Um português, um brasileiro...» Era a única afinidade, já que na altura Duarte não fazia fotografia como agora. Andava sempre com a máquina, mas não tinha qualquer preocupação estética. Tirava fotos para recordação, às coisas que achava bonitas, e pouco mais. «Julgo que tenho um slide ou dois dele [Sebastião Salgado] lá em casa. Mas isso é só uma curiosidade. Acho até que nunca falámos de fotografia. Falávamos da vida, de coisas assim.»

A partir dessa altura fez a sua aprendizagem de fotografia experimentando, estragando, lendo revistas e visitando exposições. «Não para imitar, mas para aprender.» Nos anos 80 começou a participar em concursos e mesmo que não ganhasse (nos primeiros anos não ganhou) tinha o cuidado de ir às cerimónias de entrega de prémios, aos convívios, para contactar com aquela gente. «Porque aqui em Vila Real, profissionais, indivíduos a saber de fotografia, praticamente é só o Marius. O resto é só casamentos e baptizados — é o que dá dinheiro». Nunca pensou fazer qualquer carreira profissional com a fotografia. «Detestaria andar atrás dos manequins, dos ministros...» E casamentos? «Isso é como um indivíduo prostituir-se». Definitivamente, não faz fotografia com objectivos comerciais. (Prefere dar a vender.) Há uns anos chegou mesmo a dar aulas de fotografia de graça na Escola Preparatória Monsenhor Jerónimo do Amaral.

Com a participação nos concursos vieram os prémios (16 primeiros prémios, 13 segundos, 12 terceiros e 14 menções honrosas) e as exposições (99, entre colectivas e individuais) por este país fora e pelo estrangeiro.

A última foi na Bienal da Moita, onde já é um habitué.

 
 

fotografia de Duarte Carvalho in 'Bisalhães: Arqueologia de um Povo'
fotografia de Duarte Carvalho in Bisalhães: Arqueologia de um Povo









fotografia de Duarte Carvalho (série 'Breve Ensaio sobre Codessais')
fotografia de Duarte Carvalho
(série 'Breve Ensaio sobre Codessais')


A religiosidade popular

Um dos temas que gosta (tanto de fotografar como de estudar do ponto de vista etnográfico) é a religiosidade popular, nas suas mais diversas facetas. «Gostava de compreender e de entrar nestes assuntos. (Eu não sou devoto, não tenho fé, Ele que me perdoe. Quando chegar lá cima conversamos.)» Neste campo tem feito diversos levantamentos fotográficos. Está consciente do interesse que estes trabalhos têm para um estudo etnográfico da região, mas tem experimentado a impotência perante o destino a que quase invariavelmente são votadas as fotografias: o arquivo. Da parte dele faz o que pode para divulgar o trabalho: expõe, procura publicar, busca patrocínios...

Sob o mote da religiosidade popular tem mais de duzentos slides. «Bruxaria, pagadores de promessas, armadores de andores, recolha de fundos, os anjinhos...» De tudo um pouco. Andou cerca de quatro anos a fazer a recolha. O único bruxo que conseguiu fotografar foi o de Eiriz (que agora está em Chaves), embora tenha uma cunha para o de Águas Santas. Do de Eiriz, diz (passe a rima): «O moço é impecável. Falámos, deixou-se fotografar e, chegada a hora das consultas, tive que me vir embora, porque ele tinha que trabalhar. Tinha a casa cheia.» Os outros não se deixaram fotografar. «Faço estes trabalhos como gostava de ir ao Tibete, Nepal, sítios assim... Fotografo isto porque é o que tenho aqui à mão. Não tenho dinheiro para viajar e andar atrás dessas religiões.»

O trabalho “Flagrantes de um povo” — outro no âmbito da recolha etnográfica — foi feito com as sobras da “Religiosidade”. Paralelamente ao trabalho principal, ia tirando outras fotos sobre alguma coisa que lhe chamava a atenção. O barbeiro, o engraxa... coisas assim. Quando faz este tipo de trabalho, costuma apresentar-se de forma discreta. Roupas normais, a máquina num saco velho, ou num saco plástico. «Convém não chamar a atenção, porque é perigoso. As pessoas podem não gostar, ou podem ficar nervosas e deixam de ser naturais.» Gosta de ir como um romeiro. Por vezes conversa banalmente com os potenciais fotografados, para os preparar e ser autorizado, e depois tira o “retrato” quando os apanha desprevenidos, mais naturais. «Porque senão ficam tesos, até sufocam.» Nestas andanças de voyeur, observa coisas que por vezes passam despercebidas ao cidadão comum. É o caso de um homem que cumpria uma promessa numa romaria em Sanfins, com uma grande vela na mão, trajando uma farda militar. Duarte meteu conversa:

«— Então onde é que o Sr. esteve [no ultramar]?

— Eu não estive — respondeu o homem.

— Então não esteve?! E o que está aqui a fazer?

— Por não ter ido é que venho aqui cumprir promessa.

Valente, a promessa, que passados tantos anos ainda dura, rigorosamente fardada.»

 
 

fotografia de Duarte Carvalho (série 'Breve Ensaio sobre Codessais')
fotografia de Duarte Carvalho
(série 'Breve Ensaio sobre Codessais')





fotografia de Duarte Carvalho (série 'Breve Ensaio sobre Codessais')
fotografia de Duarte Carvalho
(série 'Breve Ensaio sobre Codessais')





fotografia de Duarte Carvalho (série 'Breve Ensaio sobre Codessais')
fotografia de Duarte Carvalho
(série 'Breve Ensaio sobre Codessais')





fotografia de Duarte Carvalho (série 'Breve Ensaio sobre Codessais')
fotografia de Duarte Carvalho
(série 'Breve Ensaio sobre Codessais')


O lado artístico (sem aspas).

Se lhe fosse pedido que optasse por um dos dois tipos de fotografia que faz... «não optava.» Precisa dos dois. Ultimamente, após muito tempo a fazer recolha, sentiu necessidade de fazer uma coisa diferente. Planeou e executou o trabalho que intitulou “Breve ensaio sobre Codessais”. Expô-lo recentemente no CCRVR. Este ensaio, sobre as piscinas de Vila Real, é mais uma demonstração da sua maneira peculiar de olhar a cidade. Já a havia experimentado em “Vila Real — Outra forma de te olhar” e “Vila Real — Novas cores, novas formas”.

As sua cores de eleição «podem ser o vermelho, o azul. Cores vivas, de um modo geral.» Gosta de cores fortes, saturadas e de formas simples. «Coisas pouco complicadas, de leitura fácil. Nada de muitos objectos.» Isso vê-se nos seus trabalhos artísticos. Poderá dizer-se que Duarte é um bocado desconstrutivista. No trabalho sobre Codessais reduz os objectos, já de si simples, a um pormenor. A outros altera-lhes a escala ou o plano dimensional pela ausência propositada de quaisquer elementos de comparação no campo visual. Deixa que as pessoas interpretem as fotografias conforme entenderem.

Como bom artista (que diz não ser) prefere as máquinas fotográficas mais rudimentares. As novas tecnologias assustam-no um bocadinho. «A fotografia talvez não necessite dessas "manipulações", embora o que interessa seja o resultado final. Não interessa se foi feito à mão ou com a máquina “tal”, interessa é se a pessoa gosta ou não gosta. Mas eu ainda prefiro mandar na máquina, e gosto que ela faça aquilo que eu quero.» Tem sido bem mandada, a máquina.

Antigamente, a família de Duarte, como qualquer família normal, tinha as suas fotos “para mais tarde recordar”. Agora, «com a mania da estética» perde muitas coisas. Quase não tem nada dos filhos, por exemplo. «Passam-se anos sem fotografias nenhumas dos rapazes.» Em casa de ferreiro...


Um fotógrafo em Vila Real

Embora se considere “um fotógrafo em Vila Real”, reconhece que Vítor Nogueira (autor de “Uma genealogia alternativa para Duarte Carvalho”, texto que acompanhava o folheto da sua última exposição) terá um bocado de razão quando diz que ele é “o fotógrafo de Vila Real”, depois de Marius. «Se calhar, infelizmente.» Porque há muita gente a tirar fotografias, mas não mostra serviço. «Saem cá para fora quando há neve.» Em Vila Real é o único. «Era bom que houvesse mais. Para a fotografia, de um modo geral, era melhor. Isto é um isolamento total» e «o isolamento não leva a nada. A pessoa pode atrofiar.» Miguel Costa Pinto, a propósito do trabalho “Convergências”, acrescenta que Duarte é uma miríade no deserto de Vila Real. Dizendo de outra maneira, Vila Real é um deserto. Ainda tentou contrariar isso — sem o êxito que gostaria — criando uma secção de fotografia no CCRVR. Recentemente, fizeram um concurso. Houve mais de oitenta concorrentes. “Imagens da criança”, era o tema. Aguarda-se que cresça, a criança.

«Há muito que fazer em fotografia documental, o registo de imagens que ficam depois para quem vier. E ninguém faz isso. Fazem casamentos e baptizados e mais nada. De resto, aquilo que é preciso, ninguém faz.» Ele gostava de as fazer, mas o problema «é o fim do mês, o fim do mês é que estraga tudo. É implacável.»


 
 
Mecenato — A montra como “galeria”

fotografia de Fernando Gouveia
fotografia de Fernando Gouveia

Duarte Carvalho tem uma loja e esta tem uma montra. «Ter o privilégio de ter um espaço virado para a rua é importante e é uma responsabilidade.» Embora a sua loja viva das coisas que tem para vender, na montra tem um cavalete onde são expostas regularmente pinturas de outros "artistas". «Por vezes vejo lá pessoas a olhar e a comentar, pessoas que provavelmente não entravam numa galeria de arte (cá também não há nenhuma). Acho que isso é importante, o que interessa é mostrar.» Os pintores sucedem-se e as marcações já chegam a Fevereiro. Ao que parece já o “expulsaram” da sua própria montra, uma vez que ele agora já não expõe lá as suas fotografias como fez em tempos. Esta espécie de mecenato que exerce substitui algumas entidades... «Eu acho que todas as cidades deviam ter um espaço onde os jovens pudessem expor pintura ou poesia ou o que fosse, para depois ser comentado, criticado...» E vender ou publicar. Duarte conhece bem o dilema de quem produz: «Produzir e encostar ao canto — eu sei o que isso custa.»

 
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'Andarilho', símbolo do EITO FORA

* excepto quando indicado de outra forma

 

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