volta ao index das edições de 1999
um jornal? uma revista?
edição n.º 10 património luís c. teixeira  

conteúdos

editorial

provocações

opinião 1

opinião 2

opinião 3

opinião 4

imoralidades 1

imoralidades 2

perfil

entrevista

gato das botas

transmont. online

torre dos coléricos

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

anacrónicas 4

património

ensaio 1

ensaio 2

poesia 1

poesia 2

poesia 3

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

Artur Moreira
Artur Moreira

A expressão património revela, per si, um conjunto de ambiguidades que nos leva à questão filosófica. Devemos falar em património ou patrimónios?! Cultura, Religião, Arte, Pensamento, Tradição Oral, Paisagem... Tudo se resume a um denominador comum. O homem. O património exibe-se conforme a acção e o pensamento dos indivíduos. A emergência da História elege apenas os grandes. Guerreiros, Reis, Navegadores e Presidentes. Políticos. A causa científica exige uma imperiosa selectividade.

Por seu turno, o Património escolhe outra via, mais abrangente mas sem deixar de ser ambiciosa. Deste modo, abraça o colectivo e com ele todas as simplificações antroponímicas, anónimas para a História mas indispensáveis para moldar o pensamento de uma terra ou de um povo.

Na prossecução deste último objectivo nasce o contributo de Artur Moreira (1920–1997). Desenhador. Mecânico. Taxista. Livreiro. Poeta. Cinéfilo. Enfim, comerciante. Um percurso que lhe permitiu deixar rastos de modernidade para além do Marão. Quer em pequenas manifestações de pioneirismo cultural como em algumas inovadoras atitudes de carácter sociológico. Apesar de tudo uma vida discreta porque nunca abdicou do seu modus vivendi nem emigrou para horizontes longínquos.

Artur Moreira (1920–1997): pioneiro da modernidade
In Memoriam


Artur era o mais velho de nove irmãos. O primogénito dos Moreiras que nasce em plena rua principal. (Duque D’Ávila e Bolama). Num lugar que o tempo tornou quase emblemático já que se transformou na actual sede do S. C. Vila Pouca.

Completa a Antiga Instrução Primária, o jovem Artur Moreira presta-se a auxiliar o pai nas tarefas laborais. Nada de estranho até porque, em meados dos anos 30, o prosseguimento de estudos recaía sobre uma minoria. Uma directiva "sócio-burguesa" que permaneceu, mais algumas décadas na mente lusitana. Entre a Instrução Primária e a Formação Superior erguia-se um fosso transponível apenas por alguns “senhorinhos”.

A independência profissional é um desejo que encontra uma meta previsível. As Minas de Jales. Mais do que um torneiro mecânico, Artur Moreira torna-se um desenhador de equipamentos mineiros. Isto facilitava as reparações e auxiliava a dinâmica industrial. Arriscou inclusive em casas particulares (ex.: a do Zé da Rita, no Br. Castanheiro Redondo) bem como no esboço de retratos. Aqui, em plena juventude, ganha um gosto acrescido: o da leitura. Nos intervalos e descansos laborais pegava em livros e jornais... para desfrutar. Bruscamente surge o serviço militar (1942), com paragem obrigatória em Tancos.

Regressa (1944), depois de tirar a especialidade de condutor-auto, e concretiza um sonho anterior, feito de observações ao carro de aluguer do pai, José Moreira. Consistia, pois, simplesmente em conduzir um dos seus dois automóveis. Até porque o entusiasmo crescera vertiginosamente. No Chevrolet transporta juizes, corregedores, médicos, engenheiros das minas... até destinos como Vila Real, Chaves e Ribeira de Pena. Ele próprio fazia a manutenção do automóvel bem como a substituição de peças e acessórios. Privilegia-se o contacto social e a aventura em dose dupla.

A anterior paixão pela leitura abre a porta a outro destino na vida desta personalidade. Em 1 de Março de 1946 surge nesta praça de Vila Pouca de Aguiar (precisamente na ponta Oeste da rua principal) uma livraria da firma Moreira & Figueiredo cujos proprietários são Artur e a irmã Ana Figueiredo Moreira. Como sócio-gerente, torna-se o primeiro a vender jornais e livros ao grande público. De entre os livros salienta-se, sobretudo manuais escolares, gramáticas, lendas, romances e outros associados concretamente ao Ensino Primário e Liceal como por ex., “O amor na literatura portuguesa” de Mário Gonçalves Viana. Relativamente aos jornais e revistas, nunca deixou de os vender até aos nossos dias. O Século, O Primeiro de Janeiro, Comércio do Porto, A Flama, Crónica Feminina, Eva de Natal, etc., etc. Paralelamente vendia postais ilustrados de fabrico francês, italiano e alemão. Mitos do cinema e da música como Clark Gable, Doris Day, Elvis Presley, Linda Cristal e Brandon de Wilde, intérprete do filme «Hud» da Paramount Films-Filmax. Também desde o inicio a "casa" Moreira começa a especializar-se em brinquedos de madeira e de lata. Os primeiros a serem manufacturados em pequenas unidades fabris.

 
 

Café Moreira
Café Moreira

Seduzido pela actividade comercial, abre no ano seguinte no mesmo local, o Café Moreira. Até hoje. Um espaço requintado e sossegado que se distinguia das tasquinhas que proliferavam na mesma rua. Por isso foi o primeiro a possibilitar uma entrada digna às senhoras para tomarem um cafézinho de “saco”. Enfim, um sitio acolhedor frequentado por alguns ilustres da recente história aguiarense como Gomes da Costa, Adriano G. Pereira, Raul Gonçalves, António Gil, João Parente, entre outros. A estes juntava-se, mormente nos anos 60 e 70, um leque de advogados, funcionários e padres que contribuía para que, nas bocas do povo, fosse conhecido como o “café dos ricos”. Entretanto não deixa de continuar a vender jornais e outros artigos.

Em Abril de 1959 inicia a sua faceta de cinéfilo. Nesta data o Cine-Teatro aguiarense começa a exibir filmes em cinemascópio1. Artur Moreira era o responsável pela organização, programação e exibição dos filmes vindos directamente do Porto. Recorde-se que o proprietário deste nobre espaço local era Francisco de Sousa Magalhães, até ser adquirido pelo município a uma herdeira deste aguiarense. Familiares próximos recordam, hoje, a lotação esgotada em filmes como «A ponte do rio Kway», «Quo Vadis?», «Os Dez Mandamentos» e «Ben Hur». Toda uma população do interior vivia momentos de regozijo e satisfação com a magia da sétima arte. Mas a culturalidade também continuava na arte de representar. Este mesmo espaço recebeu peças de teatro como, por ex., «Criada para todo o serviço» com a insubstituível Laura Alves.

A poesia também lhe tocou a sensibilidade e o espírito. Desde os tempos de namoro com Maria Adelaide (depois esposa, hoje viúva). Unicamente para gozo pessoal e consumo interno.

A envolvência sociológica da nossa personagem não tem limites se procuramos outras vias secundárias, mas também importantes. Durante largo período teve o único posto público de telefone e foi representante exclusivo de diferentes vinhos do Porto, licores e águas gaseificadas. Nos inícios dos anos 80 possuía a primeira fotocopiadora do concelho. Neste filme biográfico houve ainda espaço para um cenário político: Artur Moreira foi presidente da junta de freguesia de Vila Pouca. Com orgulho falava de uma obra: a rua paralela ao Br. 1º de Maio em direcção ao campo de futebol.

A estes aspectos socioculturais e comerciais, podemos ainda acrescentar um breve retrato psicológico. Pessoa reservada mas com muitos amigos. Paradoxalmente o seu circuito de convivência social era restrito, preferindo a leitura e a família (esposa e três filhas). A noite foi sempre um opção rejeitada. Na vida como nos negócios revelava honestidade e objectividade. Neste âmbito, organizava o trabalho de forma metódica. Por ex., ele próprio, fazia a contabilidade da "casa" até falecer. Em 1997.

Na viragem do milénio emerge, pois, a necessidade de não esquecer os (anti)heróis. Aqueles que foram esquecidos pelas actas políticas, pelos media, pelo semelhante e pela História. Curiosamente, foram alguns desses que despertaram valores, criaram alternativas, diferenciaram atitudes e suscitaram novidades. Como Artur Moreira.

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos