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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
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Artur Moreira
A expressão património
revela, per si, um conjunto de ambiguidades que nos leva à questão
filosófica. Devemos falar em património ou patrimónios?! Cultura,
Religião, Arte, Pensamento, Tradição Oral, Paisagem... Tudo se resume
a um denominador comum. O homem. O património exibe-se conforme a acção
e o pensamento dos indivíduos. A emergência da História elege apenas os
grandes. Guerreiros, Reis, Navegadores e Presidentes. Políticos. A causa
científica exige uma imperiosa selectividade.
Por seu turno, o Património escolhe outra via, mais abrangente mas sem deixar de
ser ambiciosa. Deste modo, abraça o colectivo e com ele todas as simplificações
antroponímicas, anónimas para a História mas indispensáveis
para moldar o pensamento de uma terra ou de um povo.
Na prossecução deste último objectivo nasce o contributo de Artur
Moreira (1920–1997). Desenhador. Mecânico. Taxista. Livreiro. Poeta. Cinéfilo.
Enfim, comerciante. Um percurso que lhe permitiu deixar rastos de modernidade para
além do Marão. Quer em pequenas manifestações de pioneirismo
cultural como em algumas inovadoras atitudes de carácter sociológico. Apesar
de tudo uma vida discreta porque nunca abdicou do seu modus vivendi nem emigrou para
horizontes longínquos.
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Artur Moreira (1920–1997): pioneiro da modernidade
In Memoriam
Artur era o mais velho de nove irmãos. O
primogénito dos Moreiras que nasce em plena rua principal. (Duque D’Ávila e
Bolama). Num lugar que o tempo tornou quase emblemático já que se transformou
na actual sede do S. C. Vila Pouca.
Completa a Antiga Instrução Primária, o jovem Artur
Moreira presta-se a auxiliar o pai nas tarefas laborais. Nada de estranho até porque,
em meados dos anos 30, o prosseguimento de estudos recaía sobre uma minoria. Uma
directiva "sócio-burguesa" que permaneceu, mais algumas décadas na
mente lusitana. Entre a Instrução Primária e a Formação
Superior erguia-se um fosso transponível apenas por alguns “senhorinhos”.
A independência profissional é um desejo que encontra uma
meta previsível. As Minas de Jales. Mais do que um torneiro mecânico, Artur
Moreira torna-se um desenhador de equipamentos mineiros. Isto facilitava as
reparações e auxiliava a dinâmica industrial. Arriscou inclusive em
casas particulares (ex.: a do Zé da Rita, no Br. Castanheiro Redondo) bem como no
esboço de retratos. Aqui, em plena juventude, ganha um gosto acrescido: o da leitura.
Nos intervalos e descansos laborais pegava em livros e jornais... para desfrutar. Bruscamente
surge o serviço militar (1942), com paragem obrigatória em Tancos.
Regressa (1944), depois de tirar a especialidade de condutor-auto, e
concretiza um sonho anterior, feito de observações ao carro de aluguer do pai,
José Moreira. Consistia, pois, simplesmente em conduzir um dos seus dois
automóveis. Até porque o entusiasmo crescera vertiginosamente. No Chevrolet
transporta juizes, corregedores, médicos, engenheiros das minas... até destinos
como Vila Real, Chaves e Ribeira de Pena. Ele próprio fazia a manutenção
do automóvel bem como a substituição de peças e acessórios.
Privilegia-se o contacto social e a aventura em dose dupla.
A anterior paixão pela leitura abre a porta a outro destino na vida
desta personalidade. Em 1 de Março de 1946 surge nesta praça de Vila Pouca de
Aguiar (precisamente na ponta Oeste da rua principal) uma livraria da firma Moreira &
Figueiredo cujos proprietários são Artur e a irmã Ana Figueiredo Moreira.
Como sócio-gerente, torna-se o primeiro a vender jornais e livros ao grande
público. De entre os livros salienta-se, sobretudo manuais escolares, gramáticas,
lendas, romances e outros associados concretamente ao Ensino Primário e Liceal como
por ex., “O amor na literatura portuguesa” de Mário Gonçalves Viana.
Relativamente aos jornais e revistas, nunca deixou de os vender até aos nossos dias.
O Século, O Primeiro de Janeiro, Comércio do Porto, A Flama, Crónica
Feminina, Eva de Natal, etc., etc. Paralelamente vendia postais ilustrados de fabrico
francês, italiano e alemão. Mitos do cinema e da música como Clark Gable,
Doris Day, Elvis Presley, Linda Cristal e Brandon de Wilde, intérprete do filme
«Hud» da Paramount Films-Filmax. Também desde o inicio a "casa" Moreira
começa a especializar-se em brinquedos de madeira e de lata. Os primeiros a serem
manufacturados em pequenas unidades fabris. |
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Café Moreira
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Seduzido pela actividade comercial, abre no ano seguinte no mesmo local, o
Café Moreira. Até hoje. Um espaço requintado e sossegado que se
distinguia das tasquinhas que proliferavam na mesma rua. Por isso foi o primeiro a
possibilitar uma entrada digna às senhoras para tomarem um cafézinho de “saco”.
Enfim, um sitio acolhedor frequentado por alguns ilustres da recente história
aguiarense como Gomes da Costa, Adriano G. Pereira, Raul Gonçalves, António
Gil, João Parente, entre outros. A estes juntava-se, mormente nos anos 60 e 70, um
leque de advogados, funcionários e padres que contribuía para que, nas bocas
do povo, fosse conhecido como o “café dos ricos”. Entretanto não deixa de
continuar a vender jornais e outros artigos.
Em Abril de 1959 inicia a sua faceta de cinéfilo. Nesta data o
Cine-Teatro aguiarense começa a exibir filmes em cinemascópio1.
Artur Moreira era o responsável pela organização, programação
e exibição dos filmes vindos directamente do Porto. Recorde-se que o
proprietário deste nobre espaço local era Francisco de Sousa Magalhães,
até ser adquirido pelo município a uma herdeira deste aguiarense. Familiares
próximos recordam, hoje, a lotação esgotada em filmes como «A ponte do
rio Kway», «Quo Vadis?», «Os Dez Mandamentos» e «Ben Hur». Toda uma população
do interior vivia momentos de regozijo e satisfação com a magia da
sétima arte. Mas a culturalidade também continuava na arte de representar.
Este mesmo espaço recebeu peças de teatro como, por ex., «Criada para todo o
serviço» com a insubstituível Laura Alves.
A poesia também lhe tocou a sensibilidade e o espírito.
Desde os tempos de namoro com Maria Adelaide (depois esposa, hoje viúva). Unicamente
para gozo pessoal e consumo interno.
A envolvência sociológica da nossa personagem não tem
limites se procuramos outras vias secundárias, mas também importantes. Durante
largo período teve o único posto público de telefone e foi representante
exclusivo de diferentes vinhos do Porto, licores e águas gaseificadas. Nos
inícios dos anos 80 possuía a primeira fotocopiadora do concelho. Neste filme
biográfico houve ainda espaço para um cenário político: Artur
Moreira foi presidente da junta de freguesia de Vila Pouca. Com orgulho falava de uma obra:
a rua paralela ao Br. 1º de Maio em direcção ao campo de futebol.
A estes aspectos socioculturais e comerciais, podemos ainda acrescentar um
breve retrato psicológico. Pessoa reservada mas com muitos amigos. Paradoxalmente o
seu circuito de convivência social era restrito, preferindo a leitura e a família
(esposa e três filhas). A noite foi sempre um opção rejeitada. Na vida
como nos negócios revelava honestidade e objectividade. Neste âmbito, organizava
o trabalho de forma metódica. Por ex., ele próprio, fazia a contabilidade da
"casa" até falecer. Em 1997.
Na viragem do milénio emerge, pois, a necessidade de não
esquecer os (anti)heróis. Aqueles que foram esquecidos pelas actas políticas,
pelos media, pelo semelhante e pela História. Curiosamente, foram alguns
desses que despertaram valores, criaram alternativas, diferenciaram atitudes e suscitaram
novidades. Como Artur Moreira.
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