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edição n.º 10 opinião [1] paulo araújo  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

António Guterres segundo Paulo Araújo
António Guterres segundo Paulo Araújo

Sopa de pedra


A par da formação do novo governo, António Guterres, quis impor duas curiosíssimas obrigações aos seus pupilos:

1. Que estes «percam a mania» de botar a boca no trombone (especialmente aos mal-intencionados jornalistas) sobre assuntos da governação que se pretende que sejam do máximo sigilo;

2. Que um ministro, um secretário geral, ou outro boy do género que tenha a mal-fadada sorte de cair sob a suspeita de se ter desdobrado em viagens enquanto deputado da Assembleia da República, não se demita do cargo que legitimamente ocupa até que sejam apuradas as verdades dos factos.

Ao pretender «colar um adesivo na boca» da rapaziada, Guterres, inadvertidamente, está a revelar o seu feitio de pai-galinha, extremamente preocupado com o comportamento da sua ninhada, que é incapaz de guardar um segredo, por mais insignificante que seja. As irrequietas crias estão sempre dispostas a cacarejar cada vez que uma câmara de TV lhes aparece pela frente, sobretudo à hora dos telejornais. São uns patinhos feios.

Com esta atitude do primeiro ministro assalta-nos uma dúvida: ficamos sem saber se o que ele pretende é um governo transparente nas decisões ou se é um governo com receio de que as sempiternas indecisões e burlas transpareçam demasiado.

O segundo ponto é simultaneamente ridículo e grave. Imagine-se o seguinte: diz o ministro não-sei-das-quantas lá para os seus botões: «Ó pá, pode ser que o PGR não descubra aquela viagenzita de trabalho que eu e a mulher fizemos às Caraíbas há sete ou oito anos. Olha, foi há tanto tempo que eu já nem ma lembra!» Uma conversa destas (de homem para botão) pode muito bem estar acontecer entre alguns indivíduos deste novo aviário. Se têm consciência de que cometeram actos menos lícitos (o caso das viagens fantasma), em vez de acatarem o silêncio imposto superiormente, os homens deviam era impôr a si próprios uma imediata demissão. Antes de qualquer notificação.

Isto é lamentável. É lamentável porque obviamente ninguém o fará. O país precisa deles. Há uma passagem da Bíblia que reza mais ou menos assim: «Quem não pecou que atire a primeira pedra». Ora eu estou convencido que, pelo menos neste mandato, nenhuma destas criaturas andará à pedrada seja contra quem for. Por uma questão de civilização, a cambada fará é muita sopinha de pedra, utilizando para o efeito os próprios tachos.

Já agora, propunha ao PGR que, numa medida mais drástica, contactasse os americanos caça-fantasmas. É que eles, os monstrinhos voláteis, andam mesmo aí. Diria Almeida Santos: «Eu não acredito em fantasmas, mas que os há, ai isso há.» No hemiciclo.

Saia mais uma sopinha, faz favor.

 
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pabloarau@periferica.org

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