|
conteúdos
editorial
provocações
opinião 1
opinião 2
opinião 3
opinião 4
imoralidades 1
imoralidades 2
perfil
entrevista
gato das botas
transmont. online
torre dos coléricos
anacrónicas 1
anacrónicas 2
anacrónicas 3
anacrónicas 4
património
ensaio 1
ensaio 2
poesia 1
poesia 2
poesia 3
caricatura
Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
|

António Guterres segundo Paulo
Araújo
|
Sopa de pedra
A par da formação do novo governo, António
Guterres, quis impor duas curiosíssimas obrigações aos seus pupilos:
1. Que estes «percam a mania» de botar a boca no trombone (especialmente
aos mal-intencionados jornalistas) sobre assuntos da governação que se pretende
que sejam do máximo sigilo;
2. Que um ministro, um secretário geral, ou outro boy do
género que tenha a mal-fadada sorte de cair sob a suspeita de se ter desdobrado em
viagens enquanto deputado da Assembleia da República, não se demita do cargo
que legitimamente ocupa até que sejam apuradas as verdades dos factos.
Ao pretender «colar um adesivo na boca» da rapaziada, Guterres, inadvertidamente,
está a revelar o seu feitio de pai-galinha, extremamente preocupado com o
comportamento da sua ninhada, que é incapaz de guardar um segredo, por mais
insignificante que seja. As irrequietas crias estão sempre dispostas a cacarejar
cada vez que uma câmara de TV lhes aparece pela frente, sobretudo à hora dos
telejornais. São uns patinhos feios.
Com esta atitude do primeiro ministro assalta-nos uma dúvida: ficamos
sem saber se o que ele pretende é um governo transparente nas decisões ou se
é um governo com receio de que as sempiternas indecisões e burlas
transpareçam demasiado.
O segundo ponto é simultaneamente ridículo e grave. Imagine-se
o seguinte: diz o ministro não-sei-das-quantas lá para os seus botões:
«Ó pá, pode ser que o PGR não descubra aquela viagenzita de trabalho
que eu e a mulher fizemos às Caraíbas há sete ou oito anos. Olha, foi
há tanto tempo que eu já nem ma lembra!» Uma conversa destas (de homem
para botão) pode muito bem estar acontecer entre alguns indivíduos deste novo
aviário. Se têm consciência de que cometeram actos menos
lícitos (o caso das viagens fantasma), em vez de acatarem o silêncio
imposto superiormente, os homens deviam era impôr a si próprios uma imediata
demissão. Antes de qualquer notificação.
Isto é lamentável. É lamentável porque
obviamente ninguém o fará. O país precisa deles. Há uma passagem
da Bíblia que reza mais ou menos assim: «Quem não pecou que atire a primeira
pedra». Ora eu estou convencido que, pelo menos neste mandato, nenhuma destas criaturas
andará à pedrada seja contra quem for. Por uma questão de
civilização, a cambada fará é muita sopinha de pedra,
utilizando para o efeito os próprios tachos.
Já agora, propunha ao PGR que, numa medida mais drástica,
contactasse os americanos caça-fantasmas. É que eles, os monstrinhos
voláteis, andam mesmo aí. Diria Almeida Santos: «Eu não acredito em
fantasmas, mas que os há, ai isso há.» No hemiciclo.
Saia mais uma sopinha, faz favor. |
|