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edição n.º 10 imoralidades [1] rui ângelo araújo  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

Rui Ângelo Araújo segundo Paulo Araújo
Rui Ângelo Araújo segundo
Paulo Araújo


Rui Ângelo Araújo disserta sobre... a merda. — Fernando Gouveia presta-lhe uma merecida homenagem com um Merdicionário.




É absolutamente interdita a aquisição desta publicação imoral (Visado pelo Monsenhor Agapito Laranjeira)
É absolutamente interdita a aquisição desta publicação imoral (Visado pelo Monsenhor Agapito Laranjeira)

S. Ex.ª
A Merda


Refere o texto do Fernando Gouveia que a merda anda em todas as bocas. Afirmação verdadeira, mas que não diz tudo. Falta acrescentar que a merda coexiste com toda a gente. Ou vice-versa.

Segundo números fidedignos (obtidos numa olhadela em volta), a merda ocorre em quantidade superior ao baixar de calças per capita (ou, mais correctamente, per cu). Este facto, que poderia significar um índice de desarranjo intestinal algo grave para os fundilhos, deve, no entanto, ser explicado à luz de outros cânones. Vinda dos interstícios menos mencionáveis no seio de uma sociedade que se quer politicamente correcta, a merda insinua-se alarvemente (lá está, um paradoxo de merda) e só a permissividade ou incapacidade cognitiva dos cidadãos lhe permite vida longa e profícua (a merda costuma casar, ter muitos filhos e ser muito feliz). Como tudo o que cheira mal (esta introdução, por exemplo), a merda é facilmente detectável, mas uma estranha identificação por parte de muitos daqueles que com ela convivem permite-lhe um certo anonimato.

A merda costuma adoptar muitas formas e frequentar não só as piores tabernas como os melhores salões. A merda é vista nas revistas da especialidade (lado a lado com o resumo da novela), nas televisões (antes, durante e depois da dita) e até ocupa um largo espaço nalguma imprensa diária. A merda está em todas (como a Caras).

Não raras vezes a merda, depois de um alegre intervalo de cinco anos, veste capa e batina, para receber licenciaturas, e logo se torna exigente: «Merda não, doutora Merda, faz favor». Regra geral, à merda são-lhe atribuídas competências nos mais basilares âmbitos, para que tudo fique na mesma. Ou pior. Na merda, enfim. É deste modo que temos merda em tudo o que é coisa pública. Merda na Saúde, merda na Justiça... Na Educação não se mexe porque ninguém gosta de mexer na merda.

A cultura é uma merda para os transmontanos. Obriga a grandes deslocações. Salvo esforçadas excepções, ir ao teatro, por exemplo, é o mesmo que ir à merda. A Lisboa ou ao Porto, que é quase a mesma... merda.

Descontar para o fisco é uma merda para toda a gente, mas alguns ainda lhe tiram o proveito. Os cidadãos do litoral, que deviam ser a mesma merda que os outros perante o Estado, são sempre beneficiados no que respeita a investimentos. A última merda que se lembraram agora para acentuar ainda mais as diferenças entre o litoral e o interior (sim, porque há que não confundir as merdas!) é o Euro 2004. "Totonegócio" revisitado? Ao Pinto da Costa, primeiro penhoraram-lhe as casas de banho, agora vão-lhe dar mais dinheiro para fazer umas novas. Vá lá a gente perceber estas merdas.

A merda tem destas coisas. Está por toda a parte. O que mais inquieta não é a falta de integridade da merda a que aludia Vasco Pulido Valente, é a sua capacidade de profusão. Em menos de um... traque, temos merda em qualquer lado. Na música, por exemplo, ninguém estranha a facilidade com que a merda vende. Sai uma cançoneta pindérica e, pimba, vai para os tops. Já na política, essa nobre arte, podia evitar-se tanta merda!... Uma maneira era reduzir o número de deputados.

 
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ruiaaraujo@periferica.org

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