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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 10 | imoralidades [1] | rui ângelo araújo | |
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imoralidades 1
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S. Ex.ª Refere o texto do Fernando Gouveia
que a merda anda em todas as bocas. Afirmação verdadeira, mas que não
diz tudo. Falta acrescentar que a merda coexiste com toda a gente. Ou vice-versa.
Segundo números fidedignos (obtidos numa olhadela em volta), a merda
ocorre em quantidade superior ao baixar de calças per capita (ou, mais
correctamente, per cu). Este facto, que poderia significar um índice de
desarranjo intestinal algo grave para os fundilhos, deve, no entanto, ser explicado à
luz de outros cânones. Vinda dos interstícios menos mencionáveis no seio
de uma sociedade que se quer politicamente correcta, a merda insinua-se alarvemente (lá
está, um paradoxo de merda) e só a permissividade ou incapacidade cognitiva
dos cidadãos lhe permite vida longa e profícua (a merda costuma casar, ter
muitos filhos e ser muito feliz). Como tudo o que cheira mal (esta introdução,
por exemplo), a merda é facilmente detectável, mas uma estranha
identificação por parte de muitos daqueles que com ela convivem permite-lhe
um certo anonimato.
A merda costuma adoptar muitas formas e frequentar não só as
piores tabernas como os melhores salões. A merda é vista nas revistas da
especialidade (lado a lado com o resumo da novela), nas televisões (antes, durante e
depois da dita) e até ocupa um largo espaço nalguma imprensa diária. A
merda está em todas (como a Caras).
Não raras vezes a merda, depois de um alegre intervalo de cinco anos,
veste capa e batina, para receber licenciaturas, e logo se torna exigente: «Merda não,
doutora Merda, faz favor». Regra geral, à merda são-lhe atribuídas
competências nos mais basilares âmbitos, para que tudo fique na mesma. Ou pior.
Na merda, enfim. É deste modo que temos merda em tudo o que é coisa
pública. Merda na Saúde, merda na Justiça... Na Educação
não se mexe porque ninguém gosta de mexer na merda.
A cultura é uma merda para os transmontanos. Obriga a grandes
deslocações. Salvo esforçadas excepções, ir ao teatro,
por exemplo, é o mesmo que ir à merda. A Lisboa ou ao Porto, que é
quase a mesma... merda.
Descontar para o fisco é uma merda para toda a gente, mas alguns
ainda lhe tiram o proveito. Os cidadãos do litoral, que deviam ser a mesma merda que
os outros perante o Estado, são sempre beneficiados no que respeita a investimentos.
A última merda que se lembraram agora para acentuar ainda mais as diferenças
entre o litoral e o interior (sim, porque há que não confundir as merdas!)
é o Euro 2004. "Totonegócio" revisitado? Ao Pinto da Costa, primeiro
penhoraram-lhe as casas de banho, agora vão-lhe dar mais dinheiro para fazer umas
novas. Vá lá a gente perceber estas merdas.
A merda tem destas coisas. Está por toda a parte. O que mais inquieta
não é a falta de integridade da merda a que aludia Vasco Pulido Valente,
é a sua capacidade de profusão. Em menos de um... traque, temos merda em
qualquer lado. Na música, por exemplo, ninguém estranha a facilidade com que
a merda vende. Sai uma cançoneta pindérica e, pimba, vai para os tops.
Já na política, essa nobre arte, podia evitar-se tanta merda!... Uma maneira
era reduzir o número de deputados. |
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transmontano sem preconceitos |
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