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edição n.º 10 o gato das botas anabela pinto  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

cabra a pastar

Anabela Pinto é investigadora na Universidade de Cambridge no âmbito do comportamento e bem-estar animal

Bem-Estar Animal e Direitos dos Animais


Bem-Estar Animal e Direitos dos Animais são dois conceitos que frequentemente são erradamente tomados com o equivalentes.

Enquanto que o Bem-Estar Animal é uma ciência, os Direitos dos Animais consiste num movimento com bases de ordem ética. A ciência do bem estar animal floresceu como uma consequência do movimento para os direitos dos animais. É difícil situar no tempo a origem deste movimento. Por exemplo já em 1822, o Reino Unido aprovava a lei para o tratamento de gado doente devido a pressões dos londrinos indignados com a forma como o gado era transportado para a cidade. Esta é talvez uma das primeiras leis da Europa que tomam em conta a protecção dos animais pelo seu valor intrínseco. No entanto 1975, o movimento para os Direitos dos Animais como é conhecido actualmente nos países Anglo-Saxónicos e da Europa do Norte, foi desencadeado pela publicação do livro do filósofo Peter Singer intitulado Animal Liberation, onde ele discute com uma atitude filosófica a atitude dos humanos relativamente aos animais.

A pressão de grupos de defesa dos animais sobre os governos, levou à necessidade de se formularem leis. No entanto os oponentes a estas ideias precisavam de ser convencidos sobre a necessidade de tal legislação. Para isto seria necessário o depoimento de pessoas objectivas. Deste modo, cientistas preocupados com o sofrimento dos animais em laboratórios e explorações de ordem comercial, começaram a dedicar-se ao estudo do comportamento animal de forma a melhor poderem entender os seus processos biológicos e do comportamento. No século dezanove era hábito abrir animais vivos, sem anestesia, nos anfiteatros de medicina nas aulas de anatomia. Este processo decorria sob a crença de que animais era simples máquinas sem capacidade de sentir dor. Isto despertou a indignação de muita gente iniciando protestos contra a vivissecção. Hoje em dia os movimentos anti-viviseccionistas opõem-se a toda e qualquer experimentação em animais. No entanto a palavra vivissecção na sua origem significa o acto de abrir o animal e estudar as suas entranhas com o animal ainda vivo e em estado consciente. Apesar de actualmente não se tem conhecimento de práticas deste tipo decorrendo em institutos de investigação, existem no entanto muitas técnicas que produzindo extrema dor e desconforto em animais, são muitas vezes questionáveis. Por exemplo, um dos livros de Histologia largamente usado nas Universidade Portuguesas apresentava uma técnica eficaz para estudar o desenvolvimento embrionário através de injecção do embrião no olho dum coelho. Imaginem as dores do pobre diabo com um embrião de rato a crescer entre a pupila e a conjuntiva. A fim de evitar sofrimento desnecessário, os países da União Europeia e os EUA desenvolveram legislação que controla o uso de animais vivos nas actividades dos laboratórios de investigação. Infelizmente alguns países, como Portugal, Grécia, Espanha, continuam a preferir esquecer a existência de tal legislação. Presentemente em Portugal não há nenhum organismo que controle os institutos de investigação médica e farmacêutica. Continua-se a dispor de animais como se fossem objectos sem valor e sem percepção de dor.

O movimento para os direitos dos animais estende-se desde os grupos com atitudes mais extremistas, como o PETA, por exemplo, nos Estados Unidos, que recusam toda e qualquer experimentação em animais, a grupos mais moderados que aceitando a experimentação como um mal necessário, requerem o tratamento do animal com e exigem o uso de anestesia em experiências susceptíveis de causar dor intensa.

Devido à variação de opiniões relativamente a este assunto, surgiu a necessidade de se formularem opiniões objectivas, desprovidas de qualquer carga emocional. Desta forma originou-se uma ciência dedicada pura e exclusivamente ao estudo de métodos e processos de redução do sofrimento animal em todas as situações. O principal objectivo dos investigadores desta área consiste em promover o bem estar de cada animal, seja ele um animal usado para investigação laboratorial, um animal de companhia, animais usados na exploração agrícola, zoos, etc. Em resumo, a ciência do bem estar animal preocupa-se em proporcionar o bem estar a todo e qualquer animal sob a responsabilidade e os cuidados (por vezes questionáveis) dos humanos.

Os cientistas estudando Bem-Estar animal não são necessariamente vegetarianos, nem são contra a experimentação animal. Não são contra a produção de porcos ou ovos. São pessoas com opiniões muito próprias e decerto alguns deles serão radicais ao ponto de nem sequer querem sentir o cheiro de um bife. No entanto, como cientistas que são, têm que se render à evidência da ciência Os cientistas que fazem a ciência não devem trazer os seus sentimentos pessoais para a ciência, pois que por definição o acto de fazer ciência deve ser desprovido de qualquer subjectividade.

A ciência do bem estar animal, por exemplo, estuda processos para melhorar a vida das galinhas poedeiras. Antes de se pronunciar sobre os efeitos das baterias, as galinhas foram submetidas a uma série de análises ao sangue e de comportamento a fim de medir eficazmente o stress a que estão submetidas. Finalmente chegou-se à conclusão, que de facto manter seis galinhas numa gaiola onde nem sequer deveria estar uma, produz efeitos nefastos para a fisiologia, saúde e bem estar destes animais. Desta forma os resultados desta investigação sugerem fortemente que se abandone tal forma de produção de ovos. Com base nestes dados, a União Europeia deliberou a abolição das baterias.

Também graças aos estudos de bem-estar animal durante o transporte, os cientistas deram uma importante contribuição para a elaboração da legislação actualmente em vigor na UE relativamente ao transporte de criaturas vivas.

Enquanto que alguns grupos mais radicais de defesa de direitos dos animais colocam bombas e atacam que de alguma forma usam animais no seu trabalho, os estudiosos de bem estar animal preferem discutir num diálogo aberto com estas pessoas os prós e os contras de manter os animais desta ou daquela forma. Aquelas pessoas que de facto se interessam pelos seus animais não têm que temer o escrutínio feito por avaliadores do bem estar animal. Estas pessoas estão dispostas a aconselhar e sugerir métodos para melhorar as condições de vida dos animais. Apenas os ignorantes com a arrogância de ninguém sabe melhor do eles ou aqueles com consciência pesada evitam expor os seus animais e as condições em que eles são mantidos. É obrigação moral de cada cidadão que se indignar com as condições precárias em que os animais são mantidos, de denunciar estes casos às autoridades pois existe legislação na Europa para tratar destes casos.

 
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