Até como seriam, por exemplo, os “pauliteiros”...
Então pensa nos transmontanos e no fado. Não têm nada a ver (risos).
Pronto, é claro que aquilo é português, canta-se e as pessoas sentem-no.
A própria guitarra do fado via-se muitas vezes tocada em
Trás-os-Montes, como se fosse um instrumento tradicional.
A concertina também se toca no Minho, no entanto não é um instrumento
tradicional português.
Mudando um pouco de assunto, tu achas que se faz boa música em
Portugal? Ou teremos ainda muito que trabalhar?
Temos boa música. Temos muita má música, mas também temos
coisas boas.
Se calhar, para haver menos má música, teríamos
que passar pelos conservatórios e pelas escolas...
Isso já é um bocado mais complicado. Mas eu acho que as entidades
competentes não estão muito interessadas. Devia partir logo do ensino
básico. E até as televisões serem mais controladas em termos de
programação.
Pelo menos a televisão pública.
E as outras também. Há coisas que são verdadeiros atentados. As
pessoas são totalmente controladas pelos meios de comunicação.
Mas, falando agora no Realejo. Como é que surgiu o
primeiro disco?
O disco surgiu numa altura que fomos a Lisboa gravar para o Fausto. O dono do
estúdio mostrou-se interessado depois do Fernando lhe ter mostrado a sanfona
[instrumento tradicional, hoje raro], de lhe ter falado do projecto do Realejo e da
sua vontade de gravar um disco. E foi assim. Gravámos. Depois o segundo foi comprado
pela Movieplay. Agora o terceiro vamos ver.
E o resultado? A aderência do público? Concertos?
A gente tem feito concertos.
Tourneés pelo estrangeiro (risos)?
Temos ido tocar ao estrangeiro. Temos participado muito em festivais. Já fomos
à Alemanha, à Córsega, à Itália. Mas não é
assim uma coisa... um boom. Sabes que muitas vezes a promoção
também não é bem feita. As editoras ficam um bocado reticentes com
este tipo de música.
Mas tendes feito espectáculos.
Sim, sim. Há sempre espectáculos. Mas nem sequer sabemos quanto é
que o disco vendeu. Porque a editora é assim... Não sabemos se está a
vender, se não está.
Mas não existem contratos? A editora não tem certas
obrigações?
Ter, tem. E então? Que é que a gente vai fazer? Nós somos
músicos, pá, não somos advogados. Não temos protecção
nenhuma neste momento.
A SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] entra aí nalgum
sítio, ou não?
Eu mandei-lhes na altura uma carta sobre os direitos do disco durante 3 anos. Eles
ficaram de tratar com a editora. Mas já vai há mais de um ano e eu ainda
não recebi nada. Existe a GDA, que é a Gestão dos Direitos dos Artistas,
na qual eu me inscrevi. Tivemos uma reunião com um representante, que é
advogado, mas também ficou tudo em águas-de-bacalhau. Não sei...
Já foram tocar a Trás-os-Montes?
Não. O mais próximos que estivemos foi em Guimarães.
E à Galiza já foram?
À Galiza já fomos. Gostam de nós. Os galegos, muitas vezes — acho
uma coisa impressionante —, gostam mais da nossa música do que os portugueses.
Não terão os galegos e o povo transmontano muitíssimas
afinidades, mesmo a nível cultural?
Há influências. Há influências de um lado e do outro. Até
nos próprios instrumentos que se tocam, a gaita de foles... Estamos muito
próximos.
Normalmente quem requisita os vossos concertos são entidades
públicas, não é? Câmaras municipais...
Sim, câmaras, até o Ministério da Cultura já pediu.
Também podem ser privados. Geralmente são agências.
Vocês foram nomeados para o prémio Zeca Afonso.
Acho que sim.
Aqui há dias li no «Público» um artigo sobre a Amélia
Muge (que foi quem ganhou o prémio este ano com o disco «Taco a Taco») e vinha o
vosso nome como sendo um dos grupos nomeados.
E com o primeiro disco também fomos nomeados. Só que como não temos
voz (vocalista), as hipóteses são menores (risos).
Vocês gostam de tocar ao vivo?
Claro. Adoramos fazer concertos e que as pessoas estejam lá para nos ouvir. E
que dancem até.
Como é que o público reage?
As pessoas gostam muito. Primeiro ficam surpresas porque não estão a
contar. Instrumentos tradicionais, cavaquinhos, bandolins... «Isto deve ser para aí
algum rancho». E depois ficam muito surpreendidas com aquilo que tocamos, porque não
tem nada a ver com isso.
O Realejo não precisa de apoios?
Claro. Nós investimos sempre em instrumentos e material de qualidade. Claro que
isso tem um preço e sai-nos do bolso. Não temos o apoio de ninguém.
Têm os espectáculos.
Temos um cachet, o que não quer dizer que a gente não faça
umas borlas quando julga que deve fazer. Quando é bom para o grupo.
Levam caro?
Não, levamos super-barato. Se calhar também é mau. Devíamos
levar mais caro, porque, normalmente as pessoas tem a ideia de que o que é caro
é bom (risos). São capazes de dar 10 ou 15 mil contos aos Madredeus ou ao Rui
Veloso e não há crise, há sempre dinheiro.
Costumam enviar propostas para as autarquias? Já enviaram alguma
para Trás-os-Montes?
Contactei com um moço de Lisboa para tratar disso, mas ainda não há
nada de concreto... Basicamente é assim, as pessoas compram o nosso espectáculo
porque conhecem. Ou porque alguém lhes falou.
Obviamente gostavas de ir tocar lá a cima?
Gostava. Mas aquelas pessoas... Não sei... Não percebo. São capazes
de levar lá o Emanuel ou outro cantor pimba e estão-se um bocado a
lixar para este tipo de música.
Depende do sítio onde fores tocar.
Eu acho que as autarquias são um bocado culpadas disso. Porque organizam muitas
coisas e têm subsídios para gastar, mas esse dinheiro é muitas vezes
canalizado para outras coisas. Eu sei disso por experiência própria da
câmara de Boticas. Nunca se passou nada no tempo em que lá estive, nunca se
passou nada. Culturalmente, zero.
Alguns vereadores estão lá mais ou menos caídos do
céu...
Estão lá porque a lei assim o exige. Exige que haja um vereador da cultura
(risos). É um bocado isso. Culturalmente, aquilo lá em cima, pelo menos das
zonas que eu conheço, não tem nada de especial. Não se passa nada.
Se as pessoas tivessem outro grau de exigência...
As pessoas também são muito comodistas.
A Orquestra do Norte toca lá, e as pessoas vão ao teatro.
Claro que vão, e se houvesse um concerto nosso lá em cima, as pessoas iam,
de certeza.
És solicitado, como disseste à bocado, pelo Fausto...
Tocaste com a Né Ladeiras naquele disco dela o “Trás-os-Montes”?
Não, não toquei.
Mas foste músico convidado quando foi apresentado o disco ao vivo
no CCB [Centro Cultural de Belém]?
Fui. E depois mais tarde comecei a tocar com ela durante um ano e meio ou dois anos,
mas depois desisti, porque já estava ir por ondas que não me diziam muito.
“Brasileiradas” e tal... E aquilo já não era bem o meu ambiente.
O que é que achas do CD dela “Trás-os-Montes”? Tem
qualidade, gostas?
O CD está bem feito. O que eu tenho lá ainda não partiu (risos).
Não. Está bem feito. Tem lá coisas bastante bonitas. Só que (eu
nem devia estar a dizer isto porque depois fico queimado), mas eu não faria assim.
Tem o timbre muito igual do princípio ao fim. É muito parecido, as
músicas têm todas o mesmo som, do principio ao fim. Piano, baixo e bateria,
umas vezes um violino e uma guitarra lá no fundo. E a voz.
Se calhar seriam importantes outros instrumentos...
Porque nos identifica. Não é só a música, é também
o nosso som. Os nossos instrumentos. É claro que aquilo está bonito.
Conheces o último que ela gravou com cantigas do Fausto?
Eu também gravei nesse.
O que é que achas?
Esse aí por acaso não gosto.
O que é que tocaste?
Gaita de Foles, guitarra braguesa, cavaquinho e flauta. Foi nos temas acústicos.
Aquilo é um disco muito impessoal, não tem alma. Não tem nada.
Espremes e parece assim uma coisa feita à pressão. Mas não vais
pôr isto no jornal... Lá em cima não há crise, mas se chegar
cá em baixo... Se algum gajo vê... «O que é que este diz?! Vamos
queimá-lo já» (risos). Não... É um bocado... A minha resposta
é: Não gosto muito. E toquei lá! Houve coisas que eu até gostei
de fazer, mas...
Pensas voltar a residir em Trás-os-Montes algum dia?
Não.
Porque não?
Porque agora casei-me aqui, tenho aqui a minha vida.
Lá também seria tudo muito mais difícil, a
nível dos projectos que queres levar a cabo, não é?
Seria impossível. Ficava totalmente isolado.