volta ao index das edições de 1999
um jornal? uma revista?
edição n.º 10 entrevista TEXTO: paulo araújo e vítor lamas
FOTOGRAFIAS: paulo araújo
 

conteúdos

editorial

provocações

opinião 1

opinião 2

opinião 3

opinião 4

imoralidades 1

imoralidades 2

perfil

entrevista

gato das botas

transmont. online

torre dos coléricos

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

anacrónicas 4

património

ensaio 1

ensaio 2

poesia 1

poesia 2

poesia 3

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

fotografia de Paulo Araújo

Estava um dia taciturno, a espaços preenchido por uma chuva quase diluviana. Todavia, o clima romanesco não alterou o espírito bem humorado do entrevistado. Durante a conversa, divertida, Amadeu Magalhães abordou as questões sem grandes rodeios, primando pela frontalidade, com muito riso à mistura. Trouxe-nos à memória o filme de Milos Forman, “Amadeus”.

Nasceu em Couto Dornelas, concelho de Boticas. Fez o ensino secundário em Chaves e foi parar a Coimbra. Por lá andou de capa e batina. Não acabou o curso, porque não era aquilo que queria. Do que ele gosta mesmo é de música. De tocar. Aos 16 anosentrou na banda filarmónica para substituir o clarinete e quinze dias depois já era solista. «A música é como a matemática.»

Mas foi em Coimbra que os seus dotes depressa deram nas vistas. Tornou-se membro dos grupos Ars Musicae, que executa música medieval, e Realejo. Neste último (já proposto em duas ocasiões para o prémio Zeca Afonso), para além de tocar cerca de uma dezena de instrumentos (coisa pouca), tem a função de conceber os arranjos musicais. O Amadeu é, por consenso geral, o orquestrador, o mestre da banda.

Seguindo os rumos da música tradicional, o Realejo gravou dois trabalhos, “Sanfonia” e “Cenários”, ambos editados pela Movieplay (que ao que parece não pay!). Não fazem ideia de quantos discos já venderam. Direitos de autor? «Temos lutado.» Mesmo assim está na forja o terceiro disco. Concertos não vão faltando, «o povo português ainda não está educado, mas quando ouve gosta.» Vão a festivais folk no estrangeiro e são muito acarinhados pela vizinha Galiza. Para não variar.

Paralelamente a estes projectos, Amadeu tem sido frequentemente requisitado para gravar em estúdio e participar em espectáculos ao vivo. Aconselhamos a quem tiver em casa Fausto ou Né Ladeiras que os ouça com mais atenção para poder “descobrir” a sua gaita-de-foles ou o seu bandolim. Estes e outros são músicos com quem colabora regularmente.

Curiosamente (ou talvez não), dos mais de cem espectáculos que já efectuou com o Realejo, nenhum foi na sua província de origem. Ficamos à espera que algum vereador da cultura resolva economizar, preterindo a música (de qualidade mais que duvidosa) de um (E)manuel qualquer.

O fado não lhe diz nada. «Olha bem para mim. Um barrosão! Não tem nada a ver!»

Amadeu Magalhães, barrosão e com pronúncia.

“Amadeus”
Barrosão com pronúncia


És barrosão de onde?
De Couto Dornelas, Boticas. Vivi até aos 18 anos em Trás-os-Montes, andei a estudar em Chaves. Aos 16 anos integrei a Banda filarmónica de lá da terra...

Começaste aos 16 na música?
Sim, a tocar clarinete. Nunca me puxou muito para a música, não sei porquê. Talvez porque no ciclo tenha tido um trauma por não ter gostado do professor, ou qualquer coisa. Aos 17, 18 anos vim para Coimbra estudar engenharia electrotécnica. Ainda cheguei a fazer o 1ºano. Depois comecei a interessar-me por guitarra clássica e entretanto conheci o Fernando [colega no Realejo e fabricante de instrumentos tradicionais]. E, como toda a gente que conhece o Fernando, vim visitar a oficina dele. Comecei-me a interessar pelo trabalho que faz, pelos instrumentos que faz... E comecei a praticar nos instrumentos dele, na desportiva. Fui tocando e vendo outros a tocar. A maior referência que eu tinha em termos de música tradicional era o Júlio Pereira.

Era o mais conhecido...
Era aquele que me dizia alguma coisa. Porque eu nunca fui muito para o campo dos ranchos e essas coisas. Gostava do rock da altura, como toda a gente, e de tocar na banda filarmónica.

Quer dizer que te começaste a interessar por música tradicional já aqui em Coimbra?
Mais aqui em Coimbra. Lá em cima o que é que eu fazia? Estudava e ia aos fins de semana para a minha terra. Fazia o normal. Só aqui é que comecei a ouvir (o Fernando tem lá n CDs em casa que também comecei a ouvir) e comecei a aperceber-me que a música realmente não era aquilo que eu pensava que era.

Mas em termos de estudos? Tu estudaste música, ou não?
Foi o seguinte: eu desisti de engenharia electrotécnica e inscrevi-me no curso de professores do ensino básico da Escola Superior de Educação (ESE). Nos primeiros anos achei muita piada aquilo. Mas realmente achei também que não ia beber ali muito. Eu sempre tive a mania de estudar as coisas à minha maneira.

És autodidacta?
Sempre fui muito autodidacta. Nunca tive ninguém que me ensinasse, foi sempre a ver os outros a tocar, a ler livros de música... Foi sempre por gosto. Portanto, o facto de eu gostar de música tradicional não tem nada a ver com uma ideologia, não tem nada a ver com isso. Eu gosto daquilo, porque gosto... porque sim.

Podia-te ter dado para outra coisa?
Podia ter gostado de rock e apetecer-me comprar uma guitarra eléctrica...

Voltando atrás. Mudaste de curso...
Fui para a ESE, e entretanto a partir do segundo também me desliguei um bocado daquilo. Porque ou tocava, ou estudava. É muito bonito as pessoas dizerem: «Tiras o curso e depois dás aulas e também podes ser músico». Mas não se pode. É uma questão de opção.

Há incompatibilidade de horários, são necessárias muitas horas...
Precisas de tempo para te dedicares à música. Para tocares e para fazeres música. Também gosto de compor as minhas coisinhas e... de me sentir feliz. É um bocado isso também.

Aliás, alguns dos temas do Realejo são da tua autoria?
São compostos por mim, e os arranjos são feitos por mim também.

Mas sabes música?
Sei, claro. Depois aprendi por mim.

Nunca andaste a estudar?
Fui fazer um exame ao conservatório, mas nunca tive aulas. Do quinto grau de educação musical. Só naquela base de «deixa ver como é que é». E depois tirei 16.

Mas iniciaste os conhecimento musicais na banda filarmónica?
Foi na Banda. Eu andei 6 anos a tocar clarinete.

E já lias música, portanto?
Sim. O clarinete é o instrumento mais difícil de tocar da banda. Tem as partes rítmicas e melódicas de mais difícil leitura.

Porquê? Por causa da afinação?
É o violino da banda de música.

Se não fosse a banda... Em Trás-os-Montes praticamente não havia ensino de música.
Foi na banda. E nem tive ninguém a dar-me noções de educação musical. Na altura precisavam de um clarinete e eu pensei: «Vou experimentar.» Andei quinze dias a aprender, lá com os outros putos, e comecei a ver que aquilo era fácil, era sempre igual. Era matemática. Aquilo para mim era matemática. Depois fui lendo uns livritos de solfejo que o meu pai lá tinha. E comecei por aí. Ou seja, comecei mais pela parte teórica do que, se calhar, pela parte prática.

Entretanto nestes anos foste fazendo trabalhos, foste sendo requisitado por alguns músicos para fazer gravações.
Foi depois do Realejo. Foi a partir daí. Comecei a ser solicitado por algumas pessoas para gravar e para tocar.

Quem, por exemplo?
Até agora já gravei para o Fausto, para a Né Ladeiras, para o Chico César (um cantor brasileiro), para a Anabela (uma cantora que ganhou um festival qualquer)... Agora também vou gravar por vezes umas coisas para o José Cid. Mas tudo instrumentos tradicionais. Eles precisam, e aqueles que conhecem contratam o pessoal.

Que instrumentos é que tocas? (Chega este papel?)
(Risos) Chega. No Realejo toco gaita-de-foles, bandolim, cavaquinho, guitarra braguesa, flauta de bisel, concertina, guitarra clássica e guitarra folk. Depois também toco outras coisas num grupo de música antiga a que também pertenço com o Fernando, mas basicamente são de sopro...

A gaita-de-foles aprendeste sozinho também?
Sim, não há professores.

Nunca tinhas tocado lá em cima?
Só toquei gaita-de-foles por causa do Realejo, foi a necessidade do grupo.

E no grupo já alguém sabia tocar?
Não. Peguei naquilo... e pronto (risos). Eu tocava clarinete e não tive muitas dificuldades. Tocava aquilo à minha maneira. Mas depois comecei a ver outros gajos a tocar e vi que havia qualquer coisa que não era bem igual. E a partir de determinada altura comecei também a interessar-me pela técnica do instrumento.

Mas foste lendo alguma coisa ou foi só a nível auditivo?
Foi só por audição, porque não há muitos livros... (Por acaso comprei há uns dias um livro sobre a gaita-de-foles na Galiza. Mas aquilo que eles dizem lá já eu tinha descoberto por mim.) Mas o contacto com outros músicos galegos também foi bom.

 
 

fotografia de Paulo Araújo

O outro grupo onde tocas é de música medieval?
Sim. Chama-se Ars Musicae.

Digamos que de certa forma estás sempre relacionado com o passado. Quer dizer, fazes música actual, mas vais beber no passado. O que é que te fascina nesse tipo de música?
Todo o tipo de música me fascina. Desde que seja bem feito. Eu até gosto de tecno bem feito. Mas o bem feito para mim pode ser mal feito para outras pessoas. É uma questão da maneira de ser e de sentir as coisas. Porque o que é a música? A música é uma linguagem, é um conjunto de sentimentos que as pessoas têm ao ouvir qualquer coisa que lhes soa bem.

Já alguém dizia que só há dois tipos de música, a boa e a má.
Há pessoas que põem isto em causa (eu também já pus, mas agora voltei a base), mas para mim a música é a arte de combinar os sons agradáveis ao ouvido.

O fenómeno pimba existe ou não?
Existe claro. É uma maneira de estar na música. Reflecte uma maneira de ser e de estar. Às vezes também de um povo. Essa música é conhecida porque o povo consome isso. É porque aquela música lhe diz alguma coisa.

Mas achas que terá alguma qualidade, na tua forma de ver?
Para mim não. Eu era incapaz de comprar um disco de música pimba. Se estiver música pimba na rádio ou deixo estar para me rir, ou passo para outra emissora (risos). Aquilo a mim não me diz nada. É brejeirice. Nem chega a ser isso... Não é nada. A nível musical aquilo é... é perfeito! É feito por computador e por sintetizadores, geralmente... É de execução perfeita. (risos)

Mas nem toda a música pimba é feita por computadores. Por exemplo o José Cid...
Não é música pimba...

Mas tem alguns temas que andam lá perto.
Sim, alguns.

...E são bem tocados, com bons instrumentistas.
Basicamente a música pimba é feita em computador, em casa, com meios baratos. Uma das coisas que ajuda a vender isso é a facilidade com que hoje se faz um disco. Para fazerem um disco eles não olham a meios para atingir fins. Não se estão a preocupar se usam uma caixa de ritmos ou baterista. Se a caixa de ritmos resultar, vai mesmo a caixa de ritmos. Claro que ao vivo causa muito mais impacto uma banda. Hoje em dia já se usa tocar com banda (risos). Mas para as coisas serem mais rápidas e mais baratas, claro que com os meios electrónicos é mais fácil...

É, está lá o “baterista japonês” que não falha, é certinho, e cobra pouco dinheiro...
Aliás, nem há essa preocupação. Nós temos músicos bons que se lhe pagarem eles vão fazer esse serviço. Há mercenários na música também.

A nível da música tradicional, qual achas que é o panorama nacional? As coisas estão a melhorar?
Já esteve pior. Em termos de instrumentistas, de músicos, não estou a ver grande evolução. A música tradicional ainda é muito associada aos ranchos e àquelas musiquinhas...

Para além do Realejo, também há outros grupos, talvez urbanos, mas bons grupos...
Os padrões de qualidade estão um bocadinho abaixo da média.

...A Amélia Muge?
A Amélia Muge tem bons músicos. É assim: esse projecto está muito bom, tem boas músicas, bons arranjos, mas eu não gosto. Está bem feito, mas para mim não serve, não me identifico com isso. Como não me identifico por exemplo com o fado de Lisboa... Tu quando gostas de uma coisa identificas-te com alguma coisa que aquilo tem, mas também podes ter a capacidade de saber se aquilo tem qualidade ou não.

Normalmente as pessoas associam o ser bom, o ter qualidade, aquilo que gostam, não é?
É um bocado isso também. Eu já estive naquela fase de dizer: «Aquela música tem um solo de guitarra altamente, aquele gajo é que toca». Agora já não vejo as coisas assim, vejo em termos globais.

No Realejo, para além dos temas que compões, têm também temas tradicionais? Fazem recolhas, vão a cancioneiros?
Temos. Recolhas não fazemos. As recolhas basicamente estão feitas. A medida que o tempo vai passando os velhos vão morrendo. As recolhas que foram feitas por Giacometti e Lopes Graça eram boas recolhas, porque é que a gente vai andar agora preocupado se a maior parte estão feitas e ainda não estão trabalhadas?

Costumas ir à tua terra?
Agora, desde que me casei, ainda não fui lá.

Há quanto tempo?
Para aí ano e meio.

Mas costumavas lá ir, todos os anos?
Sim. E pedia às pessoas que cantassem a música do tempo delas. E numa altura até arranjei uma que está no primeiro CD. “Fui ao Douro às Vindimas”. Que por acaso depois vim a descobrir que também existia noutros lados.

A música de Trás-os-Montes tem algumas particularidades que a tornam diferentes do resto do país?
Todas as regiões de Portugal têm particularidades. A zona de Trás-os-Montes sempre foi a zona das gaitas-de-foles e dos bombos. Claro que muitas das melodias vão estar de acordo com os instrumentos que tocam. E depois há também as religiosas... O Minho é diferente, mais alegre.

Se calhar tem mesmo a ver com condições físicas, o relevo o clima...
E a maneira de estar. O transmontano é diferente do minhoto. É mais calmo, mais pachorrento. O minhoto é mais vivo... Jogo do pau, concertinas e pistolas... (risos).

Eu estava a dizer isto porque em Trás-os-Montes era capaz de não haver motivos para tantas alegrias como no Minho. O Minho é mais verde...
As zonas interiores são sempre mais fechadas, mais pesadas, a música é mais pesada. Além disso as zonas interiores foram sempre muito mais isoladas.

Qual é o tipo de música que te seduz mais?
É a da Beira-Baixa, a transmontana e a minhota. São músicas mais intensas, mais fortes, têm depressão. Mais a transmontana e a da Beira-Baixa. Talvez, exactamente por serem locais mais isolados ficaram mais tempo sem influências.

Normalmente as pessoas — algumas pessoas — associam muito a música à letra. A música é boa porque a letra é boa. Mas um instrumento fala por si só ou não?
É assim: é claro que a nossa música tradicional é muito mais vocal do que instrumental. Todos gostam do fado, gostam dessas coisas porquê? A parte instrumental fica sempre... nem sequer ligam a isso. Tu vês até o facto dos músicos pimba irem para um espectáculo só cantarem com o acompanhamento em playback as pessoas não se importam. Querem é ver o artista, o verdadeiro artista a cantar, percebes? A voz é uma coisa que capta muito mais atenção.

E mesmo a letra, não é? Liga-se muito à letra...
O nosso povo não está habituado a ouvir determinado tipo de música, não é educado para isso.

Já agora que fomos parar ao fado, qual é a ideia que tinhas da Amália? Tinhas alguma relação próxima com a sua música?
A Amália, naquilo que fazia, que era o fado, era boa, tinha muito boa voz, cantava muito bem. Só que eu não me identifico nada com o fado de Lisboa. Eu sou um barrosão, pá. As pessoas gostam, claro, gostam de tudo o que é bonito, mas não é uma coisa que eu...

Dizer-se que o fado é uma música do povo português é reduzir o território a Lisboa, não?
Posso estar errado, mas é o fado é uma música típica de uma determinada região. O fado de Lisboa e o fado de Coimbra não podem representar um povo. Nunca. É um estado de espírito de uma determinada sociedade, de uma determinada região.

 
 

fotografia de Paulo Araújo

Até como seriam, por exemplo, os “pauliteiros”...
Então pensa nos transmontanos e no fado. Não têm nada a ver (risos). Pronto, é claro que aquilo é português, canta-se e as pessoas sentem-no.

A própria guitarra do fado via-se muitas vezes tocada em Trás-os-Montes, como se fosse um instrumento tradicional.
A concertina também se toca no Minho, no entanto não é um instrumento tradicional português.

Mudando um pouco de assunto, tu achas que se faz boa música em Portugal? Ou teremos ainda muito que trabalhar?
Temos boa música. Temos muita má música, mas também temos coisas boas.

Se calhar, para haver menos má música, teríamos que passar pelos conservatórios e pelas escolas...
Isso já é um bocado mais complicado. Mas eu acho que as entidades competentes não estão muito interessadas. Devia partir logo do ensino básico. E até as televisões serem mais controladas em termos de programação.

Pelo menos a televisão pública.
E as outras também. Há coisas que são verdadeiros atentados. As pessoas são totalmente controladas pelos meios de comunicação.

Mas, falando agora no Realejo. Como é que surgiu o primeiro disco?
O disco surgiu numa altura que fomos a Lisboa gravar para o Fausto. O dono do estúdio mostrou-se interessado depois do Fernando lhe ter mostrado a sanfona [instrumento tradicional, hoje raro], de lhe ter falado do projecto do Realejo e da sua vontade de gravar um disco. E foi assim. Gravámos. Depois o segundo foi comprado pela Movieplay. Agora o terceiro vamos ver.

E o resultado? A aderência do público? Concertos?
A gente tem feito concertos. Tourneés pelo estrangeiro (risos)?
Temos ido tocar ao estrangeiro. Temos participado muito em festivais. Já fomos à Alemanha, à Córsega, à Itália. Mas não é assim uma coisa... um boom. Sabes que muitas vezes a promoção também não é bem feita. As editoras ficam um bocado reticentes com este tipo de música.

Mas tendes feito espectáculos.
Sim, sim. Há sempre espectáculos. Mas nem sequer sabemos quanto é que o disco vendeu. Porque a editora é assim... Não sabemos se está a vender, se não está.

Mas não existem contratos? A editora não tem certas obrigações?
Ter, tem. E então? Que é que a gente vai fazer? Nós somos músicos, pá, não somos advogados. Não temos protecção nenhuma neste momento.

A SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] entra aí nalgum sítio, ou não?
Eu mandei-lhes na altura uma carta sobre os direitos do disco durante 3 anos. Eles ficaram de tratar com a editora. Mas já vai há mais de um ano e eu ainda não recebi nada. Existe a GDA, que é a Gestão dos Direitos dos Artistas, na qual eu me inscrevi. Tivemos uma reunião com um representante, que é advogado, mas também ficou tudo em águas-de-bacalhau. Não sei...

Já foram tocar a Trás-os-Montes?
Não. O mais próximos que estivemos foi em Guimarães.

E à Galiza já foram?
À Galiza já fomos. Gostam de nós. Os galegos, muitas vezes — acho uma coisa impressionante —, gostam mais da nossa música do que os portugueses.

Não terão os galegos e o povo transmontano muitíssimas afinidades, mesmo a nível cultural?
Há influências. Há influências de um lado e do outro. Até nos próprios instrumentos que se tocam, a gaita de foles... Estamos muito próximos.

Normalmente quem requisita os vossos concertos são entidades públicas, não é? Câmaras municipais...
Sim, câmaras, até o Ministério da Cultura já pediu. Também podem ser privados. Geralmente são agências.

Vocês foram nomeados para o prémio Zeca Afonso.
Acho que sim.

Aqui há dias li no «Público» um artigo sobre a Amélia Muge (que foi quem ganhou o prémio este ano com o disco «Taco a Taco») e vinha o vosso nome como sendo um dos grupos nomeados.
E com o primeiro disco também fomos nomeados. Só que como não temos voz (vocalista), as hipóteses são menores (risos).

Vocês gostam de tocar ao vivo?
Claro. Adoramos fazer concertos e que as pessoas estejam lá para nos ouvir. E que dancem até.

Como é que o público reage?
As pessoas gostam muito. Primeiro ficam surpresas porque não estão a contar. Instrumentos tradicionais, cavaquinhos, bandolins... «Isto deve ser para aí algum rancho». E depois ficam muito surpreendidas com aquilo que tocamos, porque não tem nada a ver com isso.

O Realejo não precisa de apoios?
Claro. Nós investimos sempre em instrumentos e material de qualidade. Claro que isso tem um preço e sai-nos do bolso. Não temos o apoio de ninguém.

Têm os espectáculos.
Temos um cachet, o que não quer dizer que a gente não faça umas borlas quando julga que deve fazer. Quando é bom para o grupo.

Levam caro?
Não, levamos super-barato. Se calhar também é mau. Devíamos levar mais caro, porque, normalmente as pessoas tem a ideia de que o que é caro é bom (risos). São capazes de dar 10 ou 15 mil contos aos Madredeus ou ao Rui Veloso e não há crise, há sempre dinheiro.

Costumam enviar propostas para as autarquias? Já enviaram alguma para Trás-os-Montes?
Contactei com um moço de Lisboa para tratar disso, mas ainda não há nada de concreto... Basicamente é assim, as pessoas compram o nosso espectáculo porque conhecem. Ou porque alguém lhes falou.

Obviamente gostavas de ir tocar lá a cima?
Gostava. Mas aquelas pessoas... Não sei... Não percebo. São capazes de levar lá o Emanuel ou outro cantor pimba e estão-se um bocado a lixar para este tipo de música.

Depende do sítio onde fores tocar.
Eu acho que as autarquias são um bocado culpadas disso. Porque organizam muitas coisas e têm subsídios para gastar, mas esse dinheiro é muitas vezes canalizado para outras coisas. Eu sei disso por experiência própria da câmara de Boticas. Nunca se passou nada no tempo em que lá estive, nunca se passou nada. Culturalmente, zero.

Alguns vereadores estão lá mais ou menos caídos do céu...
Estão lá porque a lei assim o exige. Exige que haja um vereador da cultura (risos). É um bocado isso. Culturalmente, aquilo lá em cima, pelo menos das zonas que eu conheço, não tem nada de especial. Não se passa nada.

Se as pessoas tivessem outro grau de exigência...
As pessoas também são muito comodistas.

A Orquestra do Norte toca lá, e as pessoas vão ao teatro.
Claro que vão, e se houvesse um concerto nosso lá em cima, as pessoas iam, de certeza.

És solicitado, como disseste à bocado, pelo Fausto... Tocaste com a Né Ladeiras naquele disco dela o “Trás-os-Montes”?
Não, não toquei.

Mas foste músico convidado quando foi apresentado o disco ao vivo no CCB [Centro Cultural de Belém]?
Fui. E depois mais tarde comecei a tocar com ela durante um ano e meio ou dois anos, mas depois desisti, porque já estava ir por ondas que não me diziam muito. “Brasileiradas” e tal... E aquilo já não era bem o meu ambiente.

O que é que achas do CD dela “Trás-os-Montes”? Tem qualidade, gostas?
O CD está bem feito. O que eu tenho lá ainda não partiu (risos). Não. Está bem feito. Tem lá coisas bastante bonitas. Só que (eu nem devia estar a dizer isto porque depois fico queimado), mas eu não faria assim. Tem o timbre muito igual do princípio ao fim. É muito parecido, as músicas têm todas o mesmo som, do principio ao fim. Piano, baixo e bateria, umas vezes um violino e uma guitarra lá no fundo. E a voz.

Se calhar seriam importantes outros instrumentos...
Porque nos identifica. Não é só a música, é também o nosso som. Os nossos instrumentos. É claro que aquilo está bonito.

Conheces o último que ela gravou com cantigas do Fausto?
Eu também gravei nesse.

O que é que achas?
Esse aí por acaso não gosto.

O que é que tocaste?
Gaita de Foles, guitarra braguesa, cavaquinho e flauta. Foi nos temas acústicos. Aquilo é um disco muito impessoal, não tem alma. Não tem nada. Espremes e parece assim uma coisa feita à pressão. Mas não vais pôr isto no jornal... Lá em cima não há crise, mas se chegar cá em baixo... Se algum gajo vê... «O que é que este diz?! Vamos queimá-lo já» (risos). Não... É um bocado... A minha resposta é: Não gosto muito. E toquei lá! Houve coisas que eu até gostei de fazer, mas...

Pensas voltar a residir em Trás-os-Montes algum dia?
Não.

Porque não?
Porque agora casei-me aqui, tenho aqui a minha vida.

Lá também seria tudo muito mais difícil, a nível dos projectos que queres levar a cabo, não é?
Seria impossível. Ficava totalmente isolado.

 
vai para o topo da página  


pabloarau@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos