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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

ilustração de Eliane
ilustração de Eliane
(4 anos e 8 meses)

No desenho ou na pintura, através de uma linguagem muito própria — normalmente traduzidas em formas e cores simbólicas —, a criança exprime um conjunto de sensações, sentimentos, desejos, etc., difíceis de exprimir pela linguagem verbal, esta ainda em evolução.

ARTE INFANTIL
Manifestação de um ser


«A actividade criadora desempenha, pois, um papel indispensável na vida da criança; toda a restrição da expressão atenta contra uma evolução normal.»
(Arno Stern)


Um olhar mais atento, mais cuidado e mais profundo sobre a actividade artística da criança levar-nos-á, certamente, a perceber o quão importante e vital ela se torna no seu desenvolvimento psicológico, afectivo e social.

No entanto, quantos de nós continuam a ser indiferentes a esta manifestação precoce — considerando-a uma simples forma de expressão ingénua e plena de fantasia — e, sobretudo, ao que ela representa no quotidiano emocional da criança! Pior do que isso. Existem ainda aqueles (adultos) que, sem sentido de oportunidade ou de conhecimento da realidade expressiva da criança, tentam acelerar o processo de desenvolvimento da actividade criadora, com o (absurdo) objectivo de fazer com que aquela se “aperfeiçoe”, tornando-se, assim, adulta — um estádio que ainda vem longe e que, neste contexto, representaria um retrocesso no seu crescimento físico e mental.

Esta tentativa infeliz e comprometedora do adulto nada mais reflecte do que uma deformação que ele próprio sofreu enquanto criança, resultado de uma fatídica e ultrapassada crença na “cultura dos dons”, ou numa incapacidade de visão simplificada, tão característica nas crianças.

A arte infantil é, a vários níveis, uma manifestação de um ser. No desenho ou na pintura, através de uma linguagem muito própria — normalmente traduzida em formas e cores simbólicas —, a criança exprime um conjunto de sensações, sentimentos, desejos, etc., difíceis de exprimir pela linguagem verbal, esta ainda em evolução. Entendamos que está aqui em causa um período, no qual «a criança está ocupada em ajustar o seu mundo interior de imagens ao mundo exterior»1.

Nas artes plásticas (uma área que me é particularmente afim) e à semelhança de outras, a criança encontra um terreno propício ao desenvolvimento da sua criatividade e da sua expressão. E é pela expressão que a criança exprime «os seus temores, sentimentos, prazeres e decepções»2.

O desenho poderá mesmo constituir um instrumento de diagnóstico da criança, especialmente no que concerne à componente socio-afectiva. «Através do desenho (e as terapias da infância passam em grande medida por um trabalho sobre os seus desenhos), ela pode projectar a imagem que tem de si mesma, dos seus pais e de tudo aquilo que a rodeia»3.

Quanto aos professores e educadores, cabe-lhes a tarefa de criar condições para que a criança se possa exprimir livremente, desenvolvendo assim todas as suas potencialidades. Estas condições passam pela organização adequada de espaços, pela disposição de materiais e instrumentos de trabalho e, sobretudo, pela criação de um clima de empatia, de confiança e de solidariedade. Aos pais, por muito mínimas que sejam as condições, pede-se simplesmente que não atentem contra a liberdade de expressão dos seus filhos.

A atitude do professor/educador deverá ser ponderada e equilibrada durante a sua actividade educativa, pois, «uma intervenção excessiva ou inapropriada pode restringir ou distorcer o desenvolvimento da criança. Mas não pode inferir a partir disso que todas as intervenções sejam prejudiciais. (...) é igualmente verdade que deixar de intervir, de modo apropriado, pode restringir de modo severo o desenvolvimento artístico da criança»4.

Pela actividade artística, a criança encontra, por vezes, um escape, uma forma de exteriorizar emoções e sentimentos negativos que a perturbam. Deste modo, «a confiança nas próprias capacidades, o autoconceito positivo é um estímulo suficientemente forte para contrastar com a atitude negativa…»5. Concluímos, assim, que a expressão constitui algo de vital como o ar que respiramos, algo de imprescindível ao amadurecimento da criança. Os conhecedores da importância da expressão, da arte infantil não hesitam em colocá-la na linha da frente das necessidades a satisfazer.

A actividade criadora da criança depende de uma visão que ela própria vai amadurecendo naturalmente, uma visão que confronta o seu mundo interior com o mundo exterior. A este respeito Carmen Jiménez diz, e muito bem, que «se a visão é uma actividade permanente no ser humano, devemos educá-la do mesmo modo que fazemos com a linguagem oral»6.


Notas:

1 READ, Herbert (1958). A educação pela arte. Lisboa: Edições 70, p. 93.
2 STERN, Arno (S.d.). Uma nova compreensão da arte infantil. Lisboa: Livros Horizonte, p. 8.
3 COUTTY, Marc (1996). Naissance de L´imaginaire. L´enfance de l´art. In revista Le monde de l´éducation. N.º 243, p. 20.
4 Cf. STERN, Arno. Ib, p.113.
5 JIMÉNEZ, Carmen (1993). Alfabeto gráfico. Alfabetización visual. Madrid: Ediciones de la torre, p. 193.
6 JIMÉNEZ, Carmen (1986). La creatividad en la expresión plástica. Madrid: Narcea, p. 53.

 
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