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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 10 | ensaio [1] | josé ferreira borges | |
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ensaio 1
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Desesperadamente ligado ao absurdo, o homem é prisioneiro de uma liberdade irredutível a qualquer apoio transcendente. Mas talvez aquela hostilidade do mundo seja a raiz de uma suprema reconciliação. |
O ABSURDO EM ALBERT CAMUS
«Só há um problema filosófico verdadeiramente
sério: é o suicídio» (p. 13). Com estas palavras, Albert Camus inicia
um brilhante ensaio sobre o absurdo, tomado como ponto de partida, visando extrair
daí todas as consequências para uma nova sensibilidade perante o mundo e a vida.
Importa saber se esta merece ou não ser vivida, já que o problema do seu
sentido se coloca com uma urgência tão inevitável quanto
intransferível. E se morrer voluntariamente mais não é que «confessar
que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos (...) [reconhecendo]
a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato
dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento» (pp. 15–16),
então é preciso que igualmente se esclareça «a medida exacta em que o
suicídio é uma solução para o absurdo» (p. 16).
E o que é o absurdo? Ele expressa, antes de tudo, a relação
do eu com o mundo, e é experienciado como um divórcio «entre o homem e a sua
vida, entre o actor e o seu cenário» (p. 16). Brota da cisão entre o desejo
de unidade, de absoluto, e a pluralidade contraditória das ideias e dos fenómenos;
entre a procura de uma salvação capaz de resgatar a finitude da
condição humana e o inevitável fracasso que a caracteriza. Escreve
Camus que «o absurdo nasce deste confronto entre o chamamento humano e o desrazoável
silêncio do mundo» (p. 40). A ausência de uma ordem axiológica
prévia à existência do indivíduo e de um Deus capaz de a garantir,
a que se junta a inelutabilidade da morte, irremediável e sem esperança,
retira o sentido ao mundo e, a fortiori, à vida de cada um. Certamente que
há sempre uma probabilidade de aquele ser dotado de um sentido que nos ultrapassa,
mas que, de qualquer modo, permanece inescrutável, restando apenas «este caos, este
acaso-rei e esta equivalência divina que nasce da anarquia» (p. 66).
Na rotina do dia-a-dia, em que de repente «os cenários desabam» (p.
25), na relação com os outros e consigo próprio, o homem intui, por
vezes, a desolação da estranheza, a sensação obstinada de um
exílio sem outros recursos além da opacidade da vida e do escândalo da
morte. Escreve Camus: «esta espessura e esta estranheza do mundo — é o absurdo» (p.
27). Sartre exprimiu-o com clareza, ainda que num timbre diferente, por meio do diarista
Antoine Roquentin, que, mediante uma súbita iluminação, descobre a
existência e a sua «absurdidade fundamental»2. Habitado pela
«nostalgia de unidade, esse apetite de absoluto» (p. 30), mas incapaz de tornar familiar um
tempo e um espaço que em si mesmos são obscuros, o homem absurdo sente-se um
estrangeiro, um exilado, «num universo subitamente privado de ilusões e de luzes»
(p. 16), como se estivesse perante um abismo que devolvesse tão-só o torvelinho
caótico de uma multiplicidade incompreensível.
Mas isso não significa que ele opte pelo suicídio. Prefere
recuperar a inteireza de cada átomo de tempo, na sua inexorável fugacidade,
«entregando-se sem reservas à permanente ressurreição de todos os
instantes — é a vida arrebatada em cada um dos seus mil fragmentos, sugada em cada
uma das suas mil verdades»3. Prefere a revolta, «a presença constante
(...) em si próprio» (p. 69), o ímpeto libertador de quem perdeu todas as
ilusões e esperanças e só lhe resta agarrar o momento que passa. Ele
é o inocente que «não tem nada a justificar» (p. 86), que vive sem apelo,
procurando exaurir todas as possibilidades vitais. Além disso, é aquele «que,
sem o negar, nada faz pelo eterno» (p. 85), com a coragem de viver na esfera dos seus
limites, mas sem resignação, «certo da sua liberdade a prazo, da sua revolta
sem futuro e da sua consciência mortal» (p. 85).
O homem absurdo não é servo de nenhum código moral;
é, antes, um consciente imitador dos protótipos vivos da sua atitude: D. Juan,
o comediante e o conquistador. O primeiro põe em acto «uma ética da quantidade,
ao contrário do santo que tende para a qualidade» (p. 92). Para o segundo, a arte
consiste em «fingir absolutamente, entrar o mais profundamente possível em vidas que
não são suas» (p. 101). O terceiro, o conquistador, é aquele que se
excede por ter consciência da grandeza do espírito humano, «mergulhando no
mais ardente da alma das revoluções» (p. 110). Mas a «mais absurda das
personagens (...) é o criador» (p. 114), e «a alegria absurda por excelência
é a criação» (p. 118), ainda que esta seja para nada.
Também na criação romanesca de Camus o leitor é
bafejado com a ambiência do absurdo, como acontece n’ O Estrangeiro. Meursault
é o herói cuja inocência o situa para lá de qualquer
consideração de ordem moral. O próprio estilo da obra nos mergulha
naquela atmosfera. A narração é, em grande parte, marcada por uma
construção frásica que se baseia na disjunção, na
oposição ou na adição pura4. Cada frase constitui um
todo, uma unidade vital, uma presença, sem ligação orgânica
com a seguinte, o que se consubstancia com a vivência do tempo, também ela
pressupondo o mesmo espírito analítico. Como refere Sartre, «onde Bergson via
uma organização indecomponível, o homem absurdo vê apenas uma
série de instantes»5.
Os temas abordados por Camus colocam-no em confronto com uma linha de
pensamento que vai de «Jaspers a Heidegger, de Kierkegaard a Chestov, dos fenomenologistas
a Scheler, (...) uma família inteira de espíritos, aparentados pela sua
nostalgia, opostos pelos seus métodos ou finalidades» (p. 36). Ao contrário
de Kierkegaard e de Chestov, Camus rejeita que o irracional e o absurdo se possam constituir
como abertura para Deus. Dentro do mais contumaz orgulho ou insanável desespero, «o
absurdo é [arriscando na definição] o pecado sem Deus» (p. 55). O salto
para uma dimensão religiosa não passa do «suicídio filosófico»
(p. 56), com idêntico registo, mutatis mutandis, na kafkiana «deificação
do absurdo» (p. 166), que conduz, de igual modo, a um «imenso grito de esperança»
(p. 168). Esta, por sua vez, adquire uma significação ontológica, capaz
de evitar o niilismo6, num autor como Gabriel Marcel, contratipo
filosófico-psicológico de Camus7. Também ao contrário
de Karl Jaspers, «apóstolo do pensamento humilhado» (p. 47), em que o fracasso abre
o caminho para a Transcendência8, Camus fica-se pela experiência da
«hostilidade primitiva do mundo» (p. 26), o que igualmente o separa de Maurice Merleau-Ponty9.
Desesperadamente ligado ao absurdo, o homem é prisioneiro de uma
liberdade irredutível a qualquer apoio transcendente. Mas talvez aquela hostilidade
do mundo seja a raiz de uma suprema reconciliação. Com efeito, dentro da
«disponibilidade divina do condenado à morte» (p. 75), Meursault confessa, achando o
mundo tão parecido com ele e tão fraternal, que sentiu que fora feliz e ainda
o era10. A revolta conduz a esta pacificação, à
clarividência no interior da obscuridade. É isso o que Sísifo ensina, a
par da «fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos (...) [, porque sabe
que] cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de
noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros
basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo
feliz» (pp. 151–152).
1 As diversas indicações das páginas
colocadas entre parêntesis ao longo do texto referem-se a: Albert Camus, O Mito de
Sísifo, Edição Livros do Brasil, s/d.
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Este ensaio foi também publicado na revista electrónica NON! cultura e intervenção. |
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