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edição n.º 10 ensaio [1] josé ferreira borges  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

ilustração de Anabela Ribeiro
ilustração de Anabela Ribeiro

Desesperadamente ligado ao absurdo, o homem é prisioneiro de uma liberdade irredutível a qualquer apoio transcendente. Mas talvez aquela hostilidade do mundo seja a raiz de uma suprema reconciliação.

O ABSURDO EM ALBERT CAMUS
– uma leitura de O Mito de Sísifo1


«Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio» (p. 13). Com estas palavras, Albert Camus inicia um brilhante ensaio sobre o absurdo, tomado como ponto de partida, visando extrair daí todas as consequências para uma nova sensibilidade perante o mundo e a vida. Importa saber se esta merece ou não ser vivida, já que o problema do seu sentido se coloca com uma urgência tão inevitável quanto intransferível. E se morrer voluntariamente mais não é que «confessar que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos (...) [reconhecendo] a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento» (pp. 15–16), então é preciso que igualmente se esclareça «a medida exacta em que o suicídio é uma solução para o absurdo» (p. 16).

E o que é o absurdo? Ele expressa, antes de tudo, a relação do eu com o mundo, e é experienciado como um divórcio «entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário» (p. 16). Brota da cisão entre o desejo de unidade, de absoluto, e a pluralidade contraditória das ideias e dos fenómenos; entre a procura de uma salvação capaz de resgatar a finitude da condição humana e o inevitável fracasso que a caracteriza. Escreve Camus que «o absurdo nasce deste confronto entre o chamamento humano e o desrazoável silêncio do mundo» (p. 40). A ausência de uma ordem axiológica prévia à existência do indivíduo e de um Deus capaz de a garantir, a que se junta a inelutabilidade da morte, irremediável e sem esperança, retira o sentido ao mundo e, a fortiori, à vida de cada um. Certamente que há sempre uma probabilidade de aquele ser dotado de um sentido que nos ultrapassa, mas que, de qualquer modo, permanece inescrutável, restando apenas «este caos, este acaso-rei e esta equivalência divina que nasce da anarquia» (p. 66).

Na rotina do dia-a-dia, em que de repente «os cenários desabam» (p. 25), na relação com os outros e consigo próprio, o homem intui, por vezes, a desolação da estranheza, a sensação obstinada de um exílio sem outros recursos além da opacidade da vida e do escândalo da morte. Escreve Camus: «esta espessura e esta estranheza do mundo — é o absurdo» (p. 27). Sartre exprimiu-o com clareza, ainda que num timbre diferente, por meio do diarista Antoine Roquentin, que, mediante uma súbita iluminação, descobre a existência e a sua «absurdidade fundamental»2. Habitado pela «nostalgia de unidade, esse apetite de absoluto» (p. 30), mas incapaz de tornar familiar um tempo e um espaço que em si mesmos são obscuros, o homem absurdo sente-se um estrangeiro, um exilado, «num universo subitamente privado de ilusões e de luzes» (p. 16), como se estivesse perante um abismo que devolvesse tão-só o torvelinho caótico de uma multiplicidade incompreensível.

Mas isso não significa que ele opte pelo suicídio. Prefere recuperar a inteireza de cada átomo de tempo, na sua inexorável fugacidade, «entregando-se sem reservas à permanente ressurreição de todos os instantes — é a vida arrebatada em cada um dos seus mil fragmentos, sugada em cada uma das suas mil verdades»3. Prefere a revolta, «a presença constante (...) em si próprio» (p. 69), o ímpeto libertador de quem perdeu todas as ilusões e esperanças e só lhe resta agarrar o momento que passa. Ele é o inocente que «não tem nada a justificar» (p. 86), que vive sem apelo, procurando exaurir todas as possibilidades vitais. Além disso, é aquele «que, sem o negar, nada faz pelo eterno» (p. 85), com a coragem de viver na esfera dos seus limites, mas sem resignação, «certo da sua liberdade a prazo, da sua revolta sem futuro e da sua consciência mortal» (p. 85).

O homem absurdo não é servo de nenhum código moral; é, antes, um consciente imitador dos protótipos vivos da sua atitude: D. Juan, o comediante e o conquistador. O primeiro põe em acto «uma ética da quantidade, ao contrário do santo que tende para a qualidade» (p. 92). Para o segundo, a arte consiste em «fingir absolutamente, entrar o mais profundamente possível em vidas que não são suas» (p. 101). O terceiro, o conquistador, é aquele que se excede por ter consciência da grandeza do espírito humano, «mergulhando no mais ardente da alma das revoluções» (p. 110). Mas a «mais absurda das personagens (...) é o criador» (p. 114), e «a alegria absurda por excelência é a criação» (p. 118), ainda que esta seja para nada.

Também na criação romanesca de Camus o leitor é bafejado com a ambiência do absurdo, como acontece n’ O Estrangeiro. Meursault é o herói cuja inocência o situa para lá de qualquer consideração de ordem moral. O próprio estilo da obra nos mergulha naquela atmosfera. A narração é, em grande parte, marcada por uma construção frásica que se baseia na disjunção, na oposição ou na adição pura4. Cada frase constitui um todo, uma unidade vital, uma presença, sem ligação orgânica com a seguinte, o que se consubstancia com a vivência do tempo, também ela pressupondo o mesmo espírito analítico. Como refere Sartre, «onde Bergson via uma organização indecomponível, o homem absurdo vê apenas uma série de instantes»5.

Os temas abordados por Camus colocam-no em confronto com uma linha de pensamento que vai de «Jaspers a Heidegger, de Kierkegaard a Chestov, dos fenomenologistas a Scheler, (...) uma família inteira de espíritos, aparentados pela sua nostalgia, opostos pelos seus métodos ou finalidades» (p. 36). Ao contrário de Kierkegaard e de Chestov, Camus rejeita que o irracional e o absurdo se possam constituir como abertura para Deus. Dentro do mais contumaz orgulho ou insanável desespero, «o absurdo é [arriscando na definição] o pecado sem Deus» (p. 55). O salto para uma dimensão religiosa não passa do «suicídio filosófico» (p. 56), com idêntico registo, mutatis mutandis, na kafkiana «deificação do absurdo» (p. 166), que conduz, de igual modo, a um «imenso grito de esperança» (p. 168). Esta, por sua vez, adquire uma significação ontológica, capaz de evitar o niilismo6, num autor como Gabriel Marcel, contratipo filosófico-psicológico de Camus7. Também ao contrário de Karl Jaspers, «apóstolo do pensamento humilhado» (p. 47), em que o fracasso abre o caminho para a Transcendência8, Camus fica-se pela experiência da «hostilidade primitiva do mundo» (p. 26), o que igualmente o separa de Maurice Merleau-Ponty9.

Desesperadamente ligado ao absurdo, o homem é prisioneiro de uma liberdade irredutível a qualquer apoio transcendente. Mas talvez aquela hostilidade do mundo seja a raiz de uma suprema reconciliação. Com efeito, dentro da «disponibilidade divina do condenado à morte» (p. 75), Meursault confessa, achando o mundo tão parecido com ele e tão fraternal, que sentiu que fora feliz e ainda o era10. A revolta conduz a esta pacificação, à clarividência no interior da obscuridade. É isso o que Sísifo ensina, a par da «fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos (...) [, porque sabe que] cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz» (pp. 151–152).


Notas:

1 As diversas indicações das páginas colocadas entre parêntesis ao longo do texto referem-se a: Albert Camus, O Mito de Sísifo, Edição Livros do Brasil, s/d.
2 Jean-Paul Sartre, La Nausée, Éditions Gallimard, 1997, p. 184.
3 M. D. Mathias, A Felicidade em Albert Camus, Livraria Bertrand, 1978, p. 82.
4 Cf. Sartre, Explicação de «O Estrangeiro», em Situações I, Publicações Europa América, 1968, p. 104.
5 Sartre, op. cit., p. 103.
6 Cf. José Ferrater Mora, Diccionario de Filosofía, Ariel Referencia, vol. III (4 vols.), 1994, p. 2278.
7 Cf. Liselotte Richter, Explanação Enciclopédica, em O Mito de Sísifo, p. 215.
8 Cf. Régis Jolivet, As Doutrinas Existencialistas, Livraria Tavares Martins, 1975, pp. 341–347.
9 Cf. Liselotte Richter, op. cit., p. 212.
10 Cf. Camus, O Estrangeiro, Edição Livros do Brasil, s/d, p. 226.

 
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Este ensaio foi também publicado na revista electrónica NON! cultura e intervenção.

 

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