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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
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ilustração de A. Ktsoyan

A. Gouveia segundo
Paulo Araújo
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“Praxar é viver!”
Cenas da vida académica
Decorreu mais uma Semana do Caloiro na UTAD, em Vila
Real. Como tem sido hábito, esperava-se que fosse um sucesso. Queria-se que aquela
semana tão especial fosse alegre, inebriante, mas sobretudo rica. Rica de ideias,
transbordando cultura, ética, espalhando a elevação moral e social bem
próprias do perfil do estudante universitário. Para assegurar tal objectivo
fez-se uma agenda digna e planeou-se a bem-amada Praxe — verdadeiro ex-libris e mote da vida
estudantil.
Mas o evento perigou. Foi ameaçado de morte. Pouco antes da data
prevista para o início, e quando todos os criativos espíritos ultimavam os
preparativos para a sagrada manifestação, o Reitor proibiu a Praxe no campus
da UTAD. Em alguns insignificantes galanteios que alguns rapazes fogosos quiseram dirigir
às donzelas caloiras (incapazes que foram de resistir aos arroubos da paixão
e ao canto de sereia daquelas noviças), o Reitor quis ver "dureza". Torpe
confusão! Sob essa fantástica justificação, a da dureza dos
galanteios (porque não tinha nenhuma razão válida), quis o
magnífico homem decretar o fim da Praxe. Assim, frio, cruel, sádico,
certamente inspirado por alguma divindade maligna, lançou sem apelo uma nuvem negra
de pesar sobre a Semana do Caloiro. Um inusitado vazio tomou as habitualmente
fervilhantes cabeças juvenis. Sem Praxe, de que serviria fazer uma Semana do
Caloiro? De que serviria até continuar na universidade? Enfim, de que serviria
viver?...
O Reitor fez saber da sua proibição através de editais
estrategicamente colocados nas várias instalações da universidade. E
reforçou a sua posição fazendo-se representar na Aula Magna, onde os
estudantes haviam comparecido em força para dar início à Sagrada
Semana. Ali, entre prantos, falou-se do cruel desígnio, da condenação
à morte da malfadada Praxe.
Mas foi também ali que o inesperado aconteceu. Quando todos supunham
que o fim era definitivo, inalterável, a Praxe, encarnada na figura do venerável,
respeitável e mui estudioso ancião, tirou a corda do pescoço e
desembainhou arguta argumentação. Perante a perplexidade e o delírio
de uma plateia minutos antes quieta e pesarosa, não só renasceu, qual Fénix,
como firmou sólidas raízes, derramando pelo magno palco, em ágeis
tesouradas — a dourada guedelha de um feliz caloiro. Acto profundamente simbólico,
por todos apreciado. Solenemente, com a dignidade própria de quem dedica a vida ao
estudo, o "decano" dos veteranos, que abdicava do seu pelouro por não suportar tamanha
ignomínia, declarou com voz grave perante a assembleia: «Praxar é viver!»
Esta tão sábia sentença arrancou fortes ovações, a que
se seguiram éfe-érre-ás e hurras em grupos de três. A
posição do Reitor, derrotada e cabisbaixa, retirou-se arrastando o desalento.
Como poderia pôr-se em causa a pureza, a inocência e até
a ingenuidade duma forma de vida, a académica, que no que diz respeito a estas virtudes
e outras só tem paralelo — na escola primária?! A disciplina, a ânsia
de saber, a alegria de aprender, a curiosidade insatisfeita, que são as características
dos que hão-de ser doutores, só têm semelhança — na vivacidade
daqueles que nos verdes anos aprendem as primeiras letras no negro quadro de ardósia!
Debaixo da capa e da batina há uma criança de calções! Dentro
de cada estudante palpita ainda a ânsia de correr pelo recreio e dar largas a uma
imaginação em desenvolvimento! A Praxe não é mais do que um
reviver das brincadeiras duma infância feliz, longe das exigências dos manuais
de latim e dos laboratórios da química (que de resto são encaradas pelos
jovens universitários com um nobre sentido de dever — qual criança perante a
palmatória)!
A Praxe será sempre o garante da dedicação dos
estudantes aos caminhos da sapiência — aqueles que primeiro percorreu Dionísio.
Um estudante é um alquimista, o seu suor destila a ciência a que muitos aspiram
— os enólogos.
Probatum est! Acima das vontades de um qualquer Reitor, sobre as
ordens dos Reitores deste país, reina o espírito obstinado, indomável,
a alma excelsa e altiva de uma geração de — cábulas! |
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