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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
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ilustração de Elza Garcia
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Dúvidas, angústias e números de telefone
Esperava, pacientemente, sentada em frente ao aparelho de
telefone mudo como uma pedra há mais de duas horas. Doíam-lhe já as
costas, mas optou por ignorar a inconveniência. A mão, suspensa sobre o
auscultador — ligo-lhe eu, ou não?
— Se me precipito posso estragar tudo, se deixo passar posso parecer
desinteressada e lá se vai uma oportunidade de ouro. Bem, se calhar nem é de
ouro, é mais de prata... prata dourada... talvez, mas não da muito brilhante,
da outra com um toque mais distinto... e o telefone que não toca...
sERÁ QUE EU??!!!
Voltou-lhe a noite anterior à memória. A conversa entrecortada
pelo entusiasmo do D.J., a escassa luz e o ar quase irrespirável, o cotovelo apoiado
no bar e os copos ininterruptamente necessários para manter as cordas vocais capazes
de se sobreporem à música e ao fumo e, sobretudo, aquela cara sorridente e de
olhos claros — seriam verdes ou azuis?... talvez cinzentos... castanhos... pretos é
que não, isso é certo. A voz era forte e grave como a de um conferencista ou
locutor de rádio mas o ruído era tanto... e aquele sorriso ampliado pelo
álcool... mas sERÁ POSSíVEL QUE EU??!!!
Endireitou-se na cadeira e esforçou-se por aclarar as ideias.
Tinha-lhe pedido para trocarem contactos — uma oportunidade destas não é todos
os dias.
— Sim, para estar ali sozinho e àquela hora, casado é que
não deve ser, e de tantos locais possíveis para se encostar foi logo escolher
o balcão em que eu estava... não falou muito, mas a voz era bonita... e o
cartão dele... que bom gosto, nada de papeis reciclados e de letras coloridas, papel
alvo e bem visível, letras negras e manuscritas, enfim, um homem cheio de classe...
e o modo nobre com que acenou com a cabeça quando lhe pedi para me telefonar..
COMO É QUE EU...
Na emoção do momento, tinha-se esquecido de lhe dar o
número de telefone.
Trim Trimm Trimmm !!!
Levantou-se de um salto, esfregando as articulações já
pouco móveis.
— Estou? Quem... Ah, Mário, és tu. O quê? Tens a certeza
de que combinamos para hoje... a tarde inteira à minha espera, foi? Desculpa, aconteceu-me
um imprevisto que não chegou a acontecer... |
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