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edição n.º 10 anacrónicas [4] luísa santos  

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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

ilustração de Elza Garcia
ilustração de Elza Garcia

Dúvidas, angústias e números de telefone


Esperava, pacientemente, sentada em frente ao aparelho de telefone mudo como uma pedra há mais de duas horas. Doíam-lhe já as costas, mas optou por ignorar a inconveniência. A mão, suspensa sobre o auscultador — ligo-lhe eu, ou não?

— Se me precipito posso estragar tudo, se deixo passar posso parecer desinteressada e lá se vai uma oportunidade de ouro. Bem, se calhar nem é de ouro, é mais de prata... prata dourada... talvez, mas não da muito brilhante, da outra com um toque mais distinto... e o telefone que não toca... sERÁ QUE EU??!!!

Voltou-lhe a noite anterior à memória. A conversa entrecortada pelo entusiasmo do D.J., a escassa luz e o ar quase irrespirável, o cotovelo apoiado no bar e os copos ininterruptamente necessários para manter as cordas vocais capazes de se sobreporem à música e ao fumo e, sobretudo, aquela cara sorridente e de olhos claros — seriam verdes ou azuis?... talvez cinzentos... castanhos... pretos é que não, isso é certo. A voz era forte e grave como a de um conferencista ou locutor de rádio mas o ruído era tanto... e aquele sorriso ampliado pelo álcool... mas sERÁ POSSíVEL QUE EU??!!!

Endireitou-se na cadeira e esforçou-se por aclarar as ideias. Tinha-lhe pedido para trocarem contactos — uma oportunidade destas não é todos os dias.

— Sim, para estar ali sozinho e àquela hora, casado é que não deve ser, e de tantos locais possíveis para se encostar foi logo escolher o balcão em que eu estava... não falou muito, mas a voz era bonita... e o cartão dele... que bom gosto, nada de papeis reciclados e de letras coloridas, papel alvo e bem visível, letras negras e manuscritas, enfim, um homem cheio de classe... e o modo nobre com que acenou com a cabeça quando lhe pedi para me telefonar.. COMO É QUE EU...

Na emoção do momento, tinha-se esquecido de lhe dar o número de telefone.

Trim Trimm Trimmm !!!

Levantou-se de um salto, esfregando as articulações já pouco móveis.

— Estou? Quem... Ah, Mário, és tu. O quê? Tens a certeza de que combinamos para hoje... a tarde inteira à minha espera, foi? Desculpa, aconteceu-me um imprevisto que não chegou a acontecer...

 
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