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Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo

Lua de mel


A lua de mel é uma pastelaria. A lua de mel é um tempo.

A lua de mel é uma invenção romântica.

A lua, a verdadeira que nós conhecemos, anda pelo céu mostrando-se por fases. As vezes nem se vê. Isto acontece quando faz muito escuro. Quando não faz muito escuro e a lua aparece gorda e resplandecente, pode ver-se a olho nu o homem que num domingo andava pelo monte a roçar silvas. Ora domingo é o dia do senhor e Deus ofendeu-se. Então, como os poderes divinos são infinitos, o herege foi enviado para a lua, não se sabe por que meios, com um molhe de silvas às costas. Lá em cima ficou sozinho e eternamente com a sua culpa às costas como aviso para os que andam cá por baixo. É por estas e por outras que eu ao domingo nunca trabalho. Mas isto é outra história e eu vou falar da lua de mel.

A lua de mel é um bolo redondo. Leva ovos, uma dúzia, farinha, o mesmo peso, canela, uma colher de sopa de azeite, fermento para que se acrescente, raspa de limão, e uma chávena bem cheia de mel. Coze a lume brando, à hora em que o sol se põe. Come-se pela noite fora, de preferência. Ou ao amanhecer, para que o dia seja feliz. Porque o mel é um potente elixir que traz prosperidade. E a lua é um astro meigo. Acompanha-se com um cálice de gengibre ou uma infusão de violetas colhidas à hora do orvalho. Também dá resultado um copo de sumo de água virgem colhida na nascente. Sempre de madrugada, hora em que as fontes cantam mais cristalinas.

Quando os noivos se casam também fazem lua de mel. Como ainda não estão habituados aos delicados trabalhos de cozinha, tempera, amassa, marina, põe ao lume, prova, espera, tira da panela, põe na travessa, tira da travessa, come, vão praticar estes actos metaforicamente. Normalmente fazem estas experiências longe dos locais destinados á normal habitação. A minha vizinha que casa no sábado, por exemplo, vai fazer a lua de mel ao México. Gente com posses. Quem as não tem, fica-se por cá, nem que vá para Carcavelos. Então os noivos que ainda o são, enquanto não experimentarem as agruras quotidianas, alugam um quarto no hotel, uma semana, basta, com as coisas caras como estão, não dá para mais. Metem-se lá dentro e experimentam receitas — descascam, provam, deitam condimentos, cheiram, lambem, metem no forno. Comem. Comem-se. Regalam-se. Adormecem como anjos. Acordam cheios de fome. Comem e dormem, às vezes, até a dormir, comem. Num abençoado torpor. O sol tem um brilho novo, cantam as aves, deus anda por perto.

A lua de mel é mais uma fase da lua. Mas especial. Não dura o tempo das outras. Pode demorar anos a voltar. Depende do lume, fundamental para que ela se incendeie.

Há casos em que não volta mais.

Mas quem um dia a experimentou, dizem que fica para a vida toda com os lábios doces e os gestos transparentes.

 
   


Luísa Costa

 
 


ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo


Blitzmunda era uma imunda que lia o blitz. Como o seu nome ficava um bocado germânico, abreviou para BIimunda, e casou-se. A sua lua de mel teve contornos de rock star. Sofás de veludo, champanhe francês, caviar russo, sardinhas da Nazaré e alheiras de Mirandela. Sem esquecer o presunto de Chaves e a bola de Lamego. Se a gastronomia da lua de mel foi assim, dirão vocês, o que não terá sido a boda... Blimunda era mulher de muita substância.

O acontecimento também teve vinho de Arcossó, tinto, e pão centeio, a acompanhar verdadeiros passos acrobáticos no leito, que é para isso que foi feito o vinho tinto, embora não pareça. Os noivos ultrapassaram a imaginação do autor de Kama Sutra, enquanto saboreavam um chouriço de Oura.

Blimunda consultou um mago celta, antes da cerimónia, que lhe profetizou um futuro risonho durante a dita cuja, e que mesmo depois dela se conservaria o seu apetite. Dispensou os passeios digestivos, pois tinha mais que fazer, e nem teve tempo para ver o resultado das eleições, tal era a actividade.

No hotel de Esposende, vários hóspedes julgaram estar na presença de alguma tribo de rituais desconhecidos e ruidosos. O som que vinha do 103 parecia a dança da chuva, ou a preparação para um sacrifício. De qualquer modo, o ritmo estava certo, sincopado, e o pó ia caindo dos tectos.

Blimunda casou-se pelo 0641 qualquer coisa, a confirmar a vantagem destes serviços. A julgar pelas projecções, já se sabia qual o resultado final. Foi tão bom que decidiu repetir em data a fixar. A princípio julgou tratar-se de ficção arquitectada pelo mago Merlim, o tal celta que não se sabe. Mas com o andar da coisa concluiu que era mesmo assim, uma grande tona de mel com cobertura de mousse de chocolate dietético, para não engordar.

Enquanto, ao longe, o sol ia caindo no mar, e as gaivotas remexiam no lixo da praia, o soalho do 103 ia resistindo, pálido, às dissertações cósmicas daqueles malabarismos físicos e explosivos.

Electron no planeta Antrax. As camas espanholas dão cabo de mim. Contou-me uma amiga, porque dormia sem almofada, em colchões duros, e até tinha passado a lua de mel em Espanha.

 
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