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Colaboradores neste número:
Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto,
Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando
Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa
Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios,
Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor
Lamas.
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fotografia de Luísa Albino

detalhe da janela
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Aqui já não mora ninguém
Naquele abandono de tábuas caídas havia a
simetria da tríade, entre a pedra gasta da parede. E uma delas parecia um espelho
baço para o lado de lá. Até seria possível ver tudo como um
simples arranjo para um centro de mesa.
As paredes contêm mensagens. Verbos dos mais antigos, escritos pelo
tempo. Revelações imprevistas, romances. Romances gastos como as paredes.
Aqui já não mora ninguém, diz na porta de cima, a do
lado direito, onde parece estar a haste de uma bandeira. Seria a Internacional? Talvez
tenha passado por aqui a revolução, ou a ideia disso, a ver pelo arame, que
até podia ser da rolha de uma garrafa de champanhe.
Das sensações que saem da parede se pode dizer que são
frias, húmidas e tristes. Tal qual as ervas que descem no cimento. Das duas portas
infiro um abismo circular. Dá para reconsiderar e repetir.
E uma porta caída no chão. Hirta. Como se o fio eléctrico
a tivesse fulminado. É como se se ouvissem os morteiros, os disparos longínquos
já, os passos, as vozes. Como se se ouvisse a alma moribunda do cosmos, tentando,
mais uma vez, existir.
Cada porta são três, seis portas na varanda dos sonhos amparados
por dois tijolos e um arbusto. Ao lado tem uma boca de cena, isto é fundamental,
não há quadro sem representação. O pano está fechado, a
peça ainda não começou. E o espelho baço insiste em imagens de
múmia.
A casa de ideias. Vazia. Do poeta! Uma casa permanentemente vazia. Alucinado,
procura por todo o lado a mobília cerebral. Fixa momentos. Esculpe vivências
inexistentes. Consome-se na busca de assunto. Mas a casa das ideias continua vazia. A
razão engoliu o sonho.
Digam-lhe que ponha um chão novo na casa das ideias. Um chão
novo dá logo outro ar. Entre biliões de átomos de ar é que
respiramos. Um chão novo é um chão novo. Entre biliões de
átomos de lixo que não vemos. Será que é para ver?
A mobília cerebral foi deslocada. No espaço e no tempo.
Ficaram meia dúzia de cadeiras já velhas. Enquanto não racionalizou, o
poeta estava convencido que as cadeiras eram bancos de jardim. Um romântico.
guimaraes@portugalmail.pt
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