volta ao index das edições de 1999
um jornal? uma revista?
edição n.º 10 anacrónicas [1] manuel guimarães  

conteúdos

editorial

provocações

opinião 1

opinião 2

opinião 3

opinião 4

imoralidades 1

imoralidades 2

perfil

entrevista

gato das botas

transmont. online

torre dos coléricos

anacrónicas 1

anacrónicas 2

anacrónicas 3

anacrónicas 4

património

ensaio 1

ensaio 2

poesia 1

poesia 2

poesia 3

caricatura


Colaboradores neste número: Agapito Laranjeira, Albertino Sousa, A. Gouveia, A. Ktsoyan, Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, António Capim, Eliane, Elza Garcia, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Luísa Albino, Luísa Costa, Luísa Santos, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves. Manuel Guimarães, Maria dos Remédios, Paulo Leitão, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós, Vítor Lamas.

fotografia de Luísa Albino
fotografia de Luísa Albino



detalhe da janela
detalhe da janela

Aqui já não mora ninguém


Naquele abandono de tábuas caídas havia a simetria da tríade, entre a pedra gasta da parede. E uma delas parecia um espelho baço para o lado de lá. Até seria possível ver tudo como um simples arranjo para um centro de mesa.

As paredes contêm mensagens. Verbos dos mais antigos, escritos pelo tempo. Revelações imprevistas, romances. Romances gastos como as paredes.

Aqui já não mora ninguém, diz na porta de cima, a do lado direito, onde parece estar a haste de uma bandeira. Seria a Internacional? Talvez tenha passado por aqui a revolução, ou a ideia disso, a ver pelo arame, que até podia ser da rolha de uma garrafa de champanhe.

Das sensações que saem da parede se pode dizer que são frias, húmidas e tristes. Tal qual as ervas que descem no cimento. Das duas portas infiro um abismo circular. Dá para reconsiderar e repetir.

E uma porta caída no chão. Hirta. Como se o fio eléctrico a tivesse fulminado. É como se se ouvissem os morteiros, os disparos longínquos já, os passos, as vozes. Como se se ouvisse a alma moribunda do cosmos, tentando, mais uma vez, existir.

Cada porta são três, seis portas na varanda dos sonhos amparados por dois tijolos e um arbusto. Ao lado tem uma boca de cena, isto é fundamental, não há quadro sem representação. O pano está fechado, a peça ainda não começou. E o espelho baço insiste em imagens de múmia.

A casa de ideias. Vazia. Do poeta! Uma casa permanentemente vazia. Alucinado, procura por todo o lado a mobília cerebral. Fixa momentos. Esculpe vivências inexistentes. Consome-se na busca de assunto. Mas a casa das ideias continua vazia. A razão engoliu o sonho.

Digam-lhe que ponha um chão novo na casa das ideias. Um chão novo dá logo outro ar. Entre biliões de átomos de ar é que respiramos. Um chão novo é um chão novo. Entre biliões de átomos de lixo que não vemos. Será que é para ver?

A mobília cerebral foi deslocada. No espaço e no tempo. Ficaram meia dúzia de cadeiras já velhas. Enquanto não racionalizou, o poeta estava convencido que as cadeiras eram bancos de jardim. Um romântico.


guimaraes@portugalmail.pt

 
vai para o topo da página  

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

 

transmontano sem preconceitos